O vírus mais letal não é o Covid-19. É a guerra

18/12/2020
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Soldados britânicos
Foto: https://desinformemonos.org
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A velha Grã-Bretanha permanece saudosa do “império onde o sol nunca se põe”. Mantém 145 bases militares em 42 países, e gaba-se de ser a “principal potência naval na Europa”. E participa empenhadamente na ofensiva NATO/EUA contra Rússia e China, juntamente com outros membros da “Commonwealth”, nomeadamente Canadá e Austrália. Homenageia os seus mortos de guerra, mas omite os muitos mais mortos que esta coligação imperialista vai deixando um pouco por toda a parte.

 

O Memorial das Forças Armadas britânicas é um lugar silencioso, fantasmagórico. Localizado na beleza rural de Staffordshire, num bosque de umas 30 mil árvores e relvados envolventes, as suas figura homéricas celebram determinação e sacrifício.

 

Lista os nomes de mais de 16 mil soldados britânicos. Diz a literatura que “morreram no teatro de operações ou foram alvo de terroristas”.

 

No dia em que ali estive, um canteiro estava a acrescentar novos nomes aos que haviam morrido em cerca de 50 operações por todo o mundo no decurso daquilo que é conhecido como “tempo de paz”. Malásia, Irlanda, Quénia, Hong Kong, Líbia, Iraque, Palestina e muitos mais, incluindo operações secretas tais como as da Indochina.

 

Não se passou nem um ano desde que foi declarada a paz em 1945 em que a Grã-Bretanha não tivesse enviado forças militares para combater as guerras do império.

 

Nem um ano se passou em que países, sobretudo pobres e dilacerados por conflito, não houvessem comprado ou recebido mediante empréstimos em condições preferenciais armas britânicas para promover as guerras, ou “interesses”, do império.

 

Império? Que império? O jornalista de investigação Phil Miller revelou recentemente em Declassified que a Grã-Bretanha de Boris Johnson mantinha 145 locais militares – chamem-lhes bases – em 42 países. Johnson gabou-se de que a Grã-Bretanha é “a principal potência naval na Europa”.

 

A meio da maior emergência sanitária dos tempos modernos, com mais de 4 milhões de procedimentos cirúrgicos adiados pelo Serviço Nacional de Saúde, Johnson anunciou um aumento recorde de £16,5 mil milhões nos assim chamados gastos de defesa – um número que daria para recuperar várias vezes o sub-financiado SNS.

 

Mas estes milhares de milhões não são para defesa. A Grã-Bretanha não tem inimigos para além daqueles internos que traem a confiança da sua gente comum, dos seus enfermeiros e médicos, dos seus cuidadores, idosos, sem abrigo e jovens, como têm feito sucessivos governos neoliberais, Conservadores e Trabalhistas.

 

Ao explorar a serenidade do Memorial Nacional da Guerra cedo percebi que não havia ali um único monumento, ou plinto, ou placa, ou rosal honrando a memória das vítimas da Grã-Bretanha – os civis nas operações em “tempo de paz” aqui comemoradas.

 

Não há lembrança dos líbios mortos quando o seu país foi deliberadamente destruído pelo primeiro-ministro David Cameron e seu colaboradores em Paris e Washington.

 

Não há uma palavra de lamento pelas mulheres e crianças sérvias mortas pelas bombas britânicas, lançadas de altitude segura sobre escolas, fábricas, pontes, cidades, sob ordens de Tony Blair; ou pelas empobrecidas crianças iemenitas aniquiladas por pilotos sauditas, com logística e alvos fornecidos pelos britânicos, na segurança do ar condicionado de Riad; ou pelos sírios esfaimados em resultado das “sanções”.

 

Não há qualquer monumento às crianças palestinianas assassinadas com a conivência permanente da elite britânica, tal como a recente campanha que destruiu um modesto movimento de reforma dentro do Partido Trabalhista com acusações especiosas de anti-semitismo.

 

Há duas semanas, o chefe do estado-maior militar de Israel e o chefe da Defesa da Grã-Bretanha assinaram um acordo para “formalizar e reforçar” cooperação militar. Isto não foi notícia. Mais armas britânicas e apoio logístico irão agora fluir sobre o regime fora da lei de Tel Aviv, cujos atiradores de elite alvejam crianças e psicopatas interrogam crianças em extremo isolamento. (Ver a recente reportagem chocante de Defense for Children, Isolated and Alone).

 

Talvez a mais gritante omissão no memorial de guerra de Staffordshire seja a constatação dos milhões de iraquianos cujas vidas e cujo país foram destruídos pela invasão ilegal de Blair e Bush em 2003.

 

ORB, membro do British Polling Council, estabeleceu o número em 1,2 milhões. Em 2013, a organização ComRes perguntou a uma amostragem do público britânico quantos iraquianos haviam morrido na invasão. Uma grande maioria disse que menos de 10 mil.

 

Como é sustentado um tão letal silêncio numa sociedade sofisticada? A minha resposta é que a propaganda é muito mais eficaz em sociedades que se consideram livres do que em ditaduras e autocracias. Incluo a censura por omissão.

 

As nossas indústrias de propaganda – tanto políticas como culturais, incluindo a maior parte dos meios de comunicação social – são as mais poderosas, omnipresentes e refinadas do mundo. Grandes mentiras podem ser repetidas incessantemente nas vozes reconfortantes e credíveis da BBC. As omissões não são um problema.

 

Questão semelhante diz respeito à guerra nuclear, cuja ameaça é “sem interesse”, para citar Harold Pinter. A Rússia, uma potência nuclear, é cercada pelo grupo belicista conhecido como NATO, com tropas britânicas a “manobrar” regularmente até à fronteira que Hitler invadiu.

 

A difamação de tudo o que é russo, a menor das quais não é certamente a verdade histórica de que foi o Exército Vermelho quem largamente venceu a Segunda Guerra Mundial, está infiltrada na consciência pública. Os russos não têm “nenhum interesse”, excepto como demónios.

 

A China, também uma potência nuclear, sustenta o fardo de uma provocação incessante, com bombardeiros e drones estratégicos norte-americanos a sondar constantemente o seu espaço territorial e – hurra! – o HMS Queen Elizabeth, porta-aviões britânico de £3 mil milhões, a zarpar em breve para uma viagem de 6.500 milhas [10.459 km] a fim de impor “liberdade de navegação” à vista do território continental da China.

 

Cerca de 400 bases americanas circundam a China, “um pouco como um laço”, disse-me um antigo planeador do Pentágono. Estas estendem-se desde a Austrália, através do Pacífico até ao sul e norte da Ásia e através da Eurásia.

 

Na Coreia do Sul, um sistema de mísseis conhecido como Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude (Terminal High Altitude Air Defense, THAAD), está apontado à queima-roupa para a China através do estreito Mar da China Oriental. Imaginem mísseis chineses no México ou no Canadá ou ao largo da costa da Califórnia.

 

Alguns anos após a invasão do Iraque fiz um filme chamado The War You Don’t See, em que perguntei a destacados jornalistas norte-americanos e britânicos, bem como a executivos de noticiários televisivos – pessoas que conhecia como colegas – porquê e como Bush e Blair eram autorizados a escapar ao grande crime no Iraque, tendo em conta que as suas mentiras não eram muito brilhantes.

 

As suas respostas surpreenderam-me. Tivéssemos “nós”, disseram eles – isto é, jornalistas e emissoras, especialmente nos EUA – desafiado as afirmações da Casa Branca e de Downing Street, investigado e revelado as mentiras, em vez de as amplificar e dar-lhes eco, e a invasão do Iraque em 2003 provavelmente não teria acontecido. Inúmeras pessoas estariam hoje vivas. Quatro milhões de refugiados não teriam fugido. O pavoroso ISIS, um produto da invasão de Blair/Bush, poderia não ter sido concebido.

 

David Rose, então no Observer de Londres, que apoiou a invasão, descreveu “o pacote de mentiras com que fui alimentado por uma campanha de desinformação bastante sofisticada”. Rageh Omah, então o homem da BBC no Iraque, disse-me: “Falhámos em não pressionar os botões mais desconfortáveis com suficiente força”. Dan Rather, o apresentador da CBS, esteve de acordo, tal como muitos outros.

 

Admirei estes jornalistas que romperam o silêncio. Mas são honrosas excepções. Hoje, os tambores da guerra têm novos e altamente entusiásticos rufadores na Grã-Bretanha, na América e no “Ocidente”.

 

Faça a sua escolha entre a legião de caluniadores da Rússia e da China e de promotores de ficções tal como o Russiagate. O meu Óscar pessoal vai para Peter Hartcher do The Sydney Morning Herald, cujo alarido incessante sobre a “ameaça existencial” (da China/Rússia, sobretudo da China) foi ilustrado por um sorridente Scott Morrison, o RP que é o primeiro-ministro da Austrália, vestido como Churchill, com V de Vitória e tudo. “Nunca desde os anos 30 ….”, entoou a dupla. Ad nauseum.

 

A Covid tem proporcionado cobertura a esta pandemia de propaganda. Em Julho, Morrison assumiu a deixa de Trump e anunciou que a Austrália, que não tem inimigos, gastaria 270 mil milhões de dólares australianos em provocações, incluindo mísseis que poderiam atingir a China.

 

Que as compras da China de minerais e produtos agrícolas australianos tenham efectivamente protegido a economia da Austrália não foi “de interesse” para o governo de Camberra.

 

Os meios de comunicação australianos aplaudiram quase unanimemente, derramando uma chuva de insultos sobre a China. Milhares de estudantes chineses, que haviam garantido os salários brutos de vice-chanceleres australianos, foram aconselhados pelo seu governo a irem para outro lado. Chineses-australianos foram insultados e moços de entregas foram agredidos. O racismo colonial nunca é difícil de ressuscitar.

 

Há alguns anos entrevistei o antigo responsável da CIA na América Latina, Duane Claridge. Em algumas palavras agradavelmente honestas, ele resumiu a política externa “ocidental” tal como é ordenada e dirigida por Washington.

 

A superpotência, disse ele, podia fazer o que quisesse onde quisesse sempre que os seus “interesses estratégicos” o ditassem. As suas palavras foram: ” Mundo, habitua-te a isto”.

 

Fiz reportagem sobre uma série de guerras. Vi os restos de crianças, mulheres e idosos bombardeados e queimados até à morte: as suas aldeias devastadas, as suas árvores engrinaldadas com bocados de humanos. E muito mais.

 

Talvez seja por isso que reservo um desprezo específico por aqueles que promovem o crime da guerra predadora, que acenam a ela com má fé e sacrilégios, nunca a tendo eles próprios experimentado. O seu monopólio deve ser quebrado.

 

Este artigo é uma versão do discurso proferido na campanha de fundos Stop the War, Artists Speak Out, em Londres.

 

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/12/15/the-most-lethal-virus-is-not-cov...

 

18.Dic.20

https://www.odiario.info/o-virus-mais-letal-nao-e/

 

 

 

https://www.alainet.org/pt/articulo/210254
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