O banditismo como instrumento da ordem internacional

O roubo do ouro venezuelano no valor de mil milhões de euros, depositado no Banco de Inglaterra, é um refinado caso de banditismo de colarinho branco.

31/07/2020
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Elon Musk e Donald Trump
Foto: Evan Vucci / AP
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Elon Musk, dono da Tesla, um dos homens mais ricos do mundo, twittou tranquilamente, como quem anuncia que vai jogar ténis, que «daremos o golpe em quem quisermos». E aconselhou: «lidem com isso». As palavras foram escritas num contexto relacionado com o golpe fascista na Bolívia, que permitiu a Musk desbloquear o livre acesso às maiores reservas de lítio do mundo, essenciais para a parte gorda dos seus negócios, os acumuladores de energia.

 

Musk é idolatrado pela comunicação social corporativa, um «rapaz traquinas», talvez um pouco desbocado mas com dotes de génio para a sua actividade empresarial, tal como magnatas na moda, como Mark Zuckerberg do Facebook, Richard Branson da Virgin, Jeff Bezos da Amazon, Bill Gates e alguns outros – a nata do regime neoliberal globalista, da riqueza blasée cultivada com muita «filantropia» e que, apesar das divergências de «estilo», se revê perfeitamente em Donald Trump embora prefira apostar os financiamentos em Joe Biden.

 

Repare-se no plural majestático usado pelo dono da Tesla: «daremos o golpe». Ou seja, as mudanças violentas de regimes políticos, a transformação de sistemas democráticos em ditaduras, são obras colectivas, dele próprio e de muitos outros, de um aparelho subversivo às ordens de um sistema institucional representando os grandes interesses que mandam no mundo. O recado fica dado: Musk & Cia dão e darão o golpe onde for preciso se isso for indispensável para os seus negócios, interpretados de maneira abrangente como o «nosso civilizado modo de vida».1 Instauram-se assim ditaduras que passam a ser reconhecidas como fruto da «reposição da democracia», estabelece-se o banditismo golpista como garante da única «democracia» autorizada.

 

O «nosso» carniceiro dos Balcãs

 

Não é novidade que o banditismo é um instrumento que contribui para modelar a ordem internacional permitida, a unipolar; e que alguns seguidores, designadamente ao nível da União Europeia, querem fazer-nos crer multipolar.

 

Não surpreende, portanto, que os exemplos de tal comportamento sejam múltiplos e multifacetados, não se ficando, como é óbvio, pelos golpes de Estado clássicos.

 

Há poucos dias chegaram finalmente à justiça internacional de Haia os ecos de um segredo religiosamente guardado pelo mainstream mas que há mais de uma década é uma verdade banal para quem não consome apenas a comunicação fast food: o «presidente» do Kosovo e ex-«primeiro-ministro» da mesma entidade, Hashim Thaci, é acusado de crimes de guerra entre os quais avultam o assassínio de presos políticos seguido de extracção e comercialização dos seus órgãos internos no mercado negro internacional.2

 

Há muito que Carla del Ponte, ex-procuradora do Tribunal Internacional para a ex-Jugoslávia, revelara esta realidade macabra. Tal como o investigador britânico Dick Marty, autor em 2011 de um pormenorizado e revelador relatório sobre o mesmo assunto para o Conselho da Europa.

 

Hoje existem elementos mais do que suficientes para estarmos certos de que Hashim Thaci e o seu Exército de Libertação do Kosovo (ELK), de tipo «islâmico», constituem uma associação de malfeitores, uma entidade mafiosa ao serviço dos Estados Unidos e da NATO no processo de terrorismo militar e político que culminou com os bombardeamentos da Sérvia pela Aliança Atlântica em 1999 e a posterior «independência» do Kosovo – ainda não reconhecida no âmbito do direito internacional. Um processo que envolveu a encenação de «massacres» como o de Racak – que serviu de pretexto para os bombardeamentos efectuados pela NATO – e também limpezas étnicas no próprio Kosovo, de que a principal vítima foi e continua a ser a minoria sérvia.

 

A narrativa oficial da NATO, a única veiculada pela comunicação corporativa, explica-nos ainda hoje que tudo foi necessário para extirpar da região o «novo Hitler» e «carniceiro dos Balcãs», Slobodan Milosevic. Daí que o atlantismo tenha recorrido a Hashim Thaci e seus correligionários, traficantes de órgãos humanos, de heroína, de escravos sexuais, a quem foi entregue formalmente a gestão do Kosovo «independente» como protectorado dos Estados Unidos e da NATO. Parafraseando o inconfundível Henry Kissinger poderemos então deduzir que Hashim Thaci foi, também ele, um «carniceiro dos Balcãs», porém «o nosso carniceiro», impoluto defensor dos interesses do «nosso mundo civilizado».

 

Réplicas no Oriente

 

Poder-se-á dizer que uma vez não são vezes, que a frutuosa parceria da NATO com o banditismo nos Balcãs se justificou pelos superiores interesses da humanidade – por exemplo instalar no Kosovo a maior base militar regional dos Estados Unidos, o campo de Bondsteel – e daí não extravasou.

 

Nem os mais ingénuos acreditarão que assim foi.

 

O Tribunal Penal Internacional de Haia está a tentar, a duras penas, reunir dados sobre comportamentos das tropas norte-americanas e da NATO no Afeganistão passíveis de incorrer em crimes de guerra. Os Estados Unidos já reagiram – perante a passividade cúmplice dos «aliados» – ameaçando os dirigentes do tribunal com sanções, vedando-lhes o acesso ao território norte-americano, o que evidencia a pureza de consciência de quem assim procede.

 

Perante isto torna-se muito improvável que a justiça internacional consiga aprofundar, de maneira equilibrada, os comportamentos de todos os campos envolvidos em guerras sem fim como são as do Iraque, da Síria, da Líbia.

 

O caso líbio seria uma importante pedra de toque porque decorre de outra situação de aliança assumida entre uma organização ao serviço «da democracia», a NATO, e o banditismo político-religioso, igualmente representado por grupos de mercenários ditos «islâmicos». Foram estes que, protegidos pelo fogo atlantista que não cuidou de saber de civis – tal como acontecera na Sérvia – foram instaurar a «democracia» em Tripoli. E que belo exemplar de «regime democrático» ali ficou.

 

Não é novidade – por muito escondida que seja – que no Iraque e, sobretudo, na Síria os interesses ocidentais jazem nas mãos do banditismo «islâmico», sob capa de «moderado» mas sob o comando operacional da al-Qaeda e, agora menos, do Estado Islâmico. Existe, aliás, uma marca indelével no território sírio que testemunhará durante muitos anos essa profícua e sangrenta aliança: a gigantesca multinacional francesa Lafarge construiu a maior rede de túneis e subterrâneos desde a Segunda Guerra Mundial para ser usada, desta feita, pelos bandos de mercenários da al-Qaeda. Razão tem Musk em usar o plural majestático a propósito de estas actividades regeneradoras da «democracia».

 

Pirataria de colarinho branco

 

Não se pense, porém, que o banditismo ao serviço da ordem internacional se esgota em golpes de Estado fascistas e em guerras.

 

Os criminosos vestem roupas caras de marca quando se trata de praticar actos de pirataria apresentados como salvaguardas de legitimidades institucionais e constitucionais. O roubo do ouro venezuelano no valor de mil milhões de euros, depositado no Banco de Inglaterra, para ser entregue a um criminoso encartado como Juan Guaidó, como ficou privado na recente tentativa de assalto mercenário contra a Venezuela, é um refinado caso de banditismo de colarinho branco.

 

O governo legítimo de Caracas tentou mobilizar o ouro com a finalidade de comprar alimentos e medicamentos para a população, sujeita às sevícias das sanções internacionais impostas por Estados Unidos e aliados. Sanções são, como é bom de ver, actos de banditismo contra os povos, decididos arbitrariamente para penalizar governos que não cumprem as normas «democráticas» como aquelas que são instauradas, por exemplo, por via de golpes de Estado ou de grotescas usurpações de cargos políticos.

 

Quanto à barbárie das sanções não existe dúvida, porque é confessada pelos próprios autores. William Brownfield, ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, aconselha a encará-las como «uma agonia, uma tragédia continuada até ter um desfecho». Além disso, explica Brownfield, devem ser aceleradas «percebendo que terão impacto negativo em milhões de pessoas que já estão com dificuldades em encontrar alimentos e medicamentos». Porém, acrescenta o ex-embaixador, «os fins desejados justificam o severo castigo».

 

Presume-se portanto, através de quem as impõe, que as sanções têm inegáveis fins civilizacionais e «democráticos», mesmo que provoquem a morte de dezenas de milhares de pessoas inocentes. Como disse o almirante norte-americano Kurt Tidd, ex-chefe do Comando Sul dos Estados Unidos ao apresentar o plano «Venezuela Freedom (Liberdade) 2», é preciso «recorrer à matriz através da qual a Venezuela entre numa etapa de crise humanitária por falta de alimentos, água e medicamentos».

 

Arrasar hospitais é «democrático»

 

Tendo em consideração estes exemplos de recurso à criminalidade em nome dos mais puros ideais «democráticos» não surpreende que as tropas israelitas, na sequência de muitos outros actos contra famílias civis, tenham arrasado, em 21 de Julho, o hospital de campanha e o centro de testes de Hebron erguidos por palestinianos para combater o maior foco de COVID-19 nos territórios ocupados. O mesmo acontecera em Março com o hospital de Khirbet Ibziq, igualmente na Cisjordânia. Israel, como atestará qualquer meio de comunicação corporativo e respectivos fact-checkers, é «a única democracia do Médio Oriente».

 

Como se percebe, a cumplicidade entre banditismo puro e a defesa e propagação do «nosso civilizado modo de vida» revela-se através de uma cadeia contínua e interminável de factos e exemplos. Claro que os outros, os incivilizados modos de vida, recorrem naturalmente ao banditismo, por inerência. Por isso, assim como existe o «nosso» carniceiro dos Balcãs também devemos considerar a prática do banditismo com fins considerados legítimos, mesmo que sacrifiquem milhares e milhares de vidas humanas inocentes.

 

Digamos que se trata de seguir uma ética escrita algures nas estrelas e que legitima as práticas e as fortunas dos Musks, as atitudes dos governos de Trumps ou Bidens, as arbitrariedades contra os cidadãos cometidas pelos eurocratas, fardados ou não conforme estejam de serviço na NATO ou na União Europeia – em qualquer dos casos sob tutela de Washington.

 

Pelo que seria assisado e verdadeiramente democrático que as instituições representativas da República Portuguesa se dissociassem de cumplicidades com a «independência do Kosovo» e respectivo «presidente» Thaci, com indivíduos do submundo do crime como Juan Guaidó, com as missões coloniais da Aliança Atlântica, com a imposição de sanções que têm populações inocentes como vítimas principais, com as práticas fascistas e racistas de Israel, com a manutenção de guerras sem fim. Já agora convinha conhecer, finalmente, um parecer de Lisboa sobre o golpe fascista da Bolívia: viria a propósito, porque o regime usurpador acaba de adiar pela terceira vez as prometidas eleições gerais.

 

Ou será pedir muito que se cultive o respeito pela Constituição da República Portuguesa?

 

- José Goulão é jornalista, director do jornal digital de informação internacional O Lado Oculto-Antídoto para a propaganda global

 

Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

 

  • 1. Note-se que a rapina de Musk se aplica aos seus concidadãos: o defensor da «livre iniciativa privada» assenta o seu negócio em maciços apoios do Estado norte-americano, ou seja, dos contribuintes. Ver aqui.

  • 2. Não é o primeiro acusado de crimes de guerra, na cúpula «governamental» kosovar. Em 2017 «o governo francês deteve e colocou em residência vigiada o ex-primeiro ministro dessa invenção da NATO chamada Kosovo, Ramush Haridinaj». Ver «Num pântano fedorento da NATO», em AbrilAbril, a 19 de Janeiro de 2017.

 

30 de Julho de 2020

https://www.abrilabril.pt/internacional/o-banditismo-como-instrumento-da-ordem-internacional

 

 

https://www.alainet.org/pt/articulo/208208
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