O horror da \'Califórnia brasileira\'

02/07/2007
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“Olhando mais de perto para as condições de trabalho dos cortadores de cana aparece um mundo terrível que deveria fazer refletir aqueles que estão entusiasmados com a proposta de substituir os combustíveis fósseis por agrocombustíveis”, alerta Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio. Além de analisar as duras condições de trabalho a que estão expostos os cortadores de cana, avalia o impacto ambiental causado pela extensão das plantações da monocultura, em especial a da cana, mas também as pretensões geopolíticas e geoeconômicas do Brasil. O artigo de Zibechi encontra-se no sítio do Programa das Américas do International Relations Center Reporte e foi postado no dia 21-06-2007. A tradução é do Cepat.

O Brasil aposta em converter-se numa grande potência emergente graças à liderança capitaneada com a produção de biocombustíveis. O preço dessa ambição é pago pelo meio ambiente e pelos cortadores de cana, que continuam sendo a parte invisível desta história.

“Uma certa vez, né, quando o avião passou dando aquele banho de veneno, meu pai, ele molhou todinho (...) ficou muito mal do veneno da cana. Está acabando com muita gente jovem”, disse uma ex-cortadora de cana da região de Ribeirão Preto, São Paulo.

“A gente trabalha e ele passa um papel, um risco no papel e passa pra gente comprá no supermercado. A gente num vê dinheiro, só vê a conta do que deve”, garante um trabalhador da mesma região, onde sete de cada dez cortadores de cana não terminaram a escola primária (Testemunhos recolhidos na cartilha Agronegócio e biocombustíveis: uma mistura explosiva, do Núcleo Amigos da Terra/Brasil. Rio de Janeiro Núcleo Amigos da Terra/Brasil, 2006, p. 15. A cartilha está disponível no sítio da entidade.).

Outros cortadores garantem que são enganados pelas balanças controladas pelos patrões, e calculam que têm que levar 110 quilos para que a balança marque 100. Quase todos foram arrancados do Nordeste com promessas de que ganhariam salários muito altos. As condições de trabalho lembram a muitos analistas moderados o período da escravidão. Mas o presidente Lula disse na Cúpula do G-8 que os biocombustíveis têm “enorme potencial para gerar empregos e rendas” e que “oferecem uma verdadeira opção de crescimento sustentável” (Cartilha Agronegócio...).

Por trás da linguagem “politicamente correta” se esconde uma realidade que está fadada a destruir a Amazônia, que destrói milhões de corpos jovens e promete fantásticos negócios para os investidores. O próprio nome biocombustíveis parece estar destinado a fomentar a confusão. João Pedro Stédile, dirigente do Movimento Sem Terra, aponta que os defensores do etanol “utilizam o prefixo bio para dar a entender que é uma coisa boa”, por isso eles preferem falar claro e os chamam “agrocombustíveis”, porque se trata de uma energia produzida pelo agronegócio (Cartilha Agronegócio...).

Regredir quatro séculos

Segundo o ex-governador do Estado de São Paulo, Cláudio Lembo, com os agrocombustíveis a monocultura se estenderá a todo o país. Mesmo que seja um político conservador, membro do Democratas (DEM), acredita que o Brasil “percorreu 500 anos para voltar ao mesmo lugar” que tinha quando era colônia portuguesa. Na sua opinião, as terras dedicadas à agricultura se perderão ao serem usadas para a plantação de cana e se repetirá a história destes quatro séculos, quando “milhares foram expulsos de suas comunidades pelo Leviatã da monocultura, que cria riqueza concentrada” (O Estado de S. Paulo, 13-03-2007).

Olhando mais de perto para as condições de trabalho dos cortadores de cana aparece um mundo terrível que deveria fazer refletir aqueles que estão entusiasmados com a proposta de substituir os combustíveis fósseis por agrocombustíveis. Segundo vários relatórios, o setor emprega aproximadamente um milhão de pessoas, das quais 511 mil estão na produção agrícola. Cerca de 80% da colheita da cana é manual. Os trabalhadores da cana só recebem pelo dia trabalhado se atingirem o rendimento pré-estabelecido pelos patrões, que na região de Ribeirão Preto se situa em 12 toneladas diárias, o dobro do que foi em 1980. Se não alcançam esse patamar, não recebem nada pelo trabalho realizado (Cartilha Agronegócio... p. 14).

Para alcançar esse rendimento devem trabalhar de 10 a 12 horas por dia, mas às vezes 14, muita delas sob um sol escaldante. Muitos pais levam seus filhos menores para que os ajudem a alcançar essa meta de produção. Mesmo que a quantidade de menores que trabalham tenha diminuído, em 1993 um de cada quatro cortadores de cana tinha entre sete e 17 anos no Estado de Pernambuco e muitos dos quais não recebiam nenhum salário. Nas duas últimas safras morreram 14 pessoas [na realidade já são 19] por excesso de trabalho. Os cortadores são recrutados em outras regiões e devem viver na mesma fazenda, em cabanas sem colchões, sem água nem cozinha; devem cozinhar em latas sobre pequenas fogueiras e têm que comprar os alimentos na própria fazenda a preços muito acima dos de mercado.

A cana é cortada depois da queima, o que facilita a colheita mas prejudica gravemente o meio ambiente e produz problemas pulmonares. No município de Piracicaba, interior de São Paulo, o número de internações de crianças e adolescentes com problemas respiratórios aumenta 21% nos períodos de queima da cana. Para cada dez toneladas o cortador deve dar cerca de 72 mil golpes de facão, fazer 36 mil flexões de perna, perde cerca de dez litros de água por dia e caminha dez quilômetros diários enquanto realiza seu trabalho. O salário mensal oscila entre 300 e 400 reais por mês. Segundo o sociólogo Francisco de Oliveira a vida média dos cortadores é inferior à dos escravos da colônia.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, confessou na Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, que uma parte da produção de cana no Brasil se faz com trabalho degradante e em péssimas condições: “Trabalham sem luvas e até perdem os dedos”. Maria Aparecida de Moraes Silva, que há 30 anos estuda o trabalho nos canaviais, garante que 45% dos cortadores provêm do Nordeste. Os migrantes (são preferidos pelos empregadores porque ao estarem longe de suas famílias suportam as imposições sem protestar e depois dos sete meses que dura a safra regressam para seus lugares de origem, de modo que têm mais dificuldades para organizar sindicatos (Entrevista concedida à Revista IHU On-Line).

Isso que chamam progresso


Pouco a pouco estão sendo introduzidas máquinas colheitadeiras que realizam o trabalho de cem pessoas. Por esse motivo, os fazendeiros aumentaram as exigências de produtividade. Passam a exigir dos cortadores que cortem a cana mais rente ao chão, como fazem as máquinas. O resultado é que agora escolhem trabalhadores cada vez mais jovens que recebem um dólar por tonelada.

O jornal econômico Valor explica como caem na servidão: “Há um intermediário da mão-de-obra que percorre os Estados mais pobres, em especial o Norte e o Nordeste. Escolhe os mais jovens. Ao entrar no ônibus para ir até a cidade onde são contratados, o cortador contrai sua primeira dívida com o transporte. O intermediário ganha R$ 60,00 por cada trabalhador que leva. Não é raro que seja também o responsável pela venda das primeiras mercadorias de que os trabalhadores têm necessidade. Converte-se em ‘dono’ dessa mão-de-obra à medida que as dívidas se acumulam” (Valor Econômico, 17-05-2007).

A expansão da cultura da cana destrói a convivência social. Na região onde está a pequena cidade de Delta, Minas Gerais, foram plantados 300 mil hectares nos últimos quatro anos. A cidade tem cinco mil habitantes que se convertem em 10 mil durante a colheita. Segundo um relatório do Correio Braziliense, a pequena cidade começou a registrar taxas de homicídio inimagináveis antes da multiplicação das plantações de cana. Muitas meninas e adolescentes são seqüestradas para engordar a prostituição na região, à qual confluem cerca de 20 mil cortadores todos os anos. Os cortadores engrossam as periferias das pequenas cidades onde se multiplica o alcoolismo e o consumo de crack.

A expansão e a modernização da indústria da cana ultrapassa os povoados e municípios. José Eustáquio da Silva, prefeito de Delta, reconheceu que “o município está em colapso. Os postos de saúde, hospitais e escolas estão abarrotados, e o pior é que junto com os trabalhadores vêm toda classe de gente e bandidos”. Em Delta não há sequer um hotel, mas existem 27 bordéis. Os jornalistas descobriram que várias personalidades do município estão envolvidas no tráfico de menores e em casos de pedofilia com filhos dos cortadores de cana. Os intermediários (os “gatos”) estão armados e impõem sua lei.

Stédile costuma dar sempre o mesmo exemplo para ilustrar os problemas sociais gerados pela monocultura. “O município de Ribeirão Preto, no centro do Estado de São Paulo, é considerado a ‘Califórnia brasileira’ por seu elevado desenvolvimento tecnológico na cana. Há 30 anos, essa cidade produzia todos os alimentos, tinha campesinato no interior e, de fato, era uma região rica e com distribuição eqüitativa de renda. Agora é um imenso canavial, com 30 usinas que controlam toda a terra. Na cidade há 100 mil pessoas que vivem em favelas (dos 540 mil habitantes do município). A população carcerária é de 3.813 pessoas (só adultos) ao passo que a população que vive da agricultura e tem trabalho ali é de somente 2.412 pessoas contando as crianças. É o modelo de sociedade da monocultura da cana. Há mais gente na prisão do que trabalhando na agricultura” (Cartilha Agronegócio...).

Na safra de 2007 deve se produzir outro “avanço” tecnológico: pela primeira vez se colherá cana geneticamente modificada. É mais leve e elimina mais água, razão pela qual dará grandes lucros aos empresários. Mas os trabalhadores terão que cortar três vezes mais para chegar às 10 toneladas.

Nesta região os empresários despedem em pequenos intervalos de tempo grande quantidade de cortadores para ficar apenas com os melhores. São os chamados “campeões de produtividade”, que chegam a cortar até 20 toneladas diárias, com uma média mensal de 12 a 17 toneladas por dia (José Roberto Pereira Novaes, Cartilha Agronegócio...). Como os trabalhadores sofrem convulsões, câimbras, dores de coluna e tendinites, além dos freqüentes cortes, os empresários encontraram uma “solução técnica”. As usinas distribuem de forma gratuita um repositor hidroeletrolítico e vitamínico indicado para desportistas ou trabalhadores com intensa atividade física. Em muitas usinas os cortadores ingerem esse produto antes de começar o trabalho. “As dores do corpo desaparecem, as câimbras diminuem e a produtividade aumenta”, disse Pereira Novaes. O problema é que todos os meses têm que aumentar a dose.

“Com soros e medicamentos se mantém a elevada produtividade exigida pela cana. Como num processo de ‘seleção natural’, sobrevivem os mais fortes. Mas a pergunta é: como e até quando sobrevivem? Soros e medicamentos podem ser vistos como expressão do paradoxo de um tipo de modernização e expansão dos cultivos de cana que dilapida a mão-de-obra que os faz florescer”, insiste Pereira Novaes. Não há dados oficiais, mas o certo é que são muitos os trabalhadores jovens que se aposentam por invalidez e são dezenas de mortes por fadiga na “Califórnia brasileira”.

Os grandes ganhadores


No Brasil, a produção de cana começou em 1550, mas sua grande expansão se deu a partir de 1970 impulsionada pelo aumento dos preços do petróleo. A vegetação da costa atlântica foi reduzida à metade sendo a mais afetada pela expansão, mas agora as lavouras de cana avançam para o centro-oeste, onde se prevê que o rico bioma do Cerrado desaparecerá até 2030 por conta das monoculturas. Nos próximos sete anos o Brasil duplicará sua produção de etanol e deverá produzir quase 50% a mais de cana, o que supõe construir outras cem usinas até 2010.

Mas o Brasil quer expandir os agrocombustíveis para toda a região. Os planos imediatos consistem em levar a produção a países da América Central e ao Caribe que já contam com tratados de livre comércio com os Estados Unidos (como o CAFTA), para contornar as tarifas de importação mantidas por Washington. “O objetivo é levar até esses países o produto quase terminado”, disse o semanário Peripecias, “completar o processo nesses países e a partir daí entrar no mercado dos Estados Unidos”. O banco brasileiro [BNDES] financia os investimentos nesses países, mas, além disso, está negociando uma participação acionária de até 30% nos projetos centro-americanos.

Na opinião de Stédile, no projeto etanol confluem três grandes setores: “As petroleiras (que querem diminuir a dependência do petróleo), as empresas do agronegócio (como Bunge, Cargill, Monsanto) que querem continuar monopolizando o mercado mundial de produtos agrícolas”, e agora os capitais transnacionais que fazem “uma aliança com os proprietários de terra no sul, e em especial no Brasil, para utilizar grandes extensões de terra para a produção de agrocombustíveis” (Carlos Vicente, Cartilha Agronegócio...).

O panorama que se avizinha não é alentador. Em vez de pressionar para modificar o padrão de consumo e a matriz energética, em particular no transporte, os grandes investidores, como George Soros, e as grandes empresas, como Cargill, estão se posicionando na produção brasileira de etanol para aumentar seus lucros. O aquecimento global, assim como as condições de trabalho dos cortadores de cana, não entram no raio de suas preocupações.

https://www.alainet.org/pt/articulo/122021
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