Razões do auge econômico mundial

23/01/2007
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O início de 2007 está cheio de manifestações de otimismo sobre o comportamento da economia mundial, apesar dos vários alertas sobre os fatores negativos que ameaçam a continuidade do auge mantido durante quase toda a década de 90 do século passado (particularmente desde 1994), com uma curta interrupção entre 2000 e 2001.

O informe anual da UNCTAD recentemente publicado, sempre de muita boa qualidade, fala de uma pequena queda da alta taxa de crescimento alcançada em 2006. Previsões similares esperam-se do Informe Anual do Presidente dos Estados Unidos em fevereiro, preparado pelo conselho econômico do mesmo.

O FMI, o Banco Mundial e o excelente informe das Nações Unidas devem confirmar as previsões positivas quanto ao crescimento econômico anunciadas nos estudos de conjuntura do ano passado.

Trata-se de um consenso determinado pela força dos números, pois os “cânones” da teoria econômica não sabem muito bem explicar este comportamento da economia mundial. Para aqueles que trabalham com os ciclos longos de Kondratiev, este comportamento da economia mundial era plenamente previsível, como o leitor poderá certificar-se se ler meus artigos e livros escritos desde a década de 70.

Segundo este universo teórico, desconhecido para os economistas neoliberais e muitos heterodoxos, era previsível que as forças que iniciavam uma reestruturação da economia mundial desde 1966 deveriam preparar um novo auge econômico que os ciclos longos de Kondratiev indicavam iniciariam-se em 1994 aproximadamente.

Não se trata de nenhuma mágica senão de uma boa teoria economia apoiada no estudo da história econômica e não no estabelecimento de hipóteses cheias de ideologia e empiricamente irresponsáveis, formalizações mais estéticas que efetivas e deduções puramente formais, tudo isso a serviço da manutenção da ordem econômica vigente.

De fato, a revolução científica-técnica entrava em uma etapa nova em 1966. A expansão da economia mundial do pós II Guerra Mundial encontrava limites sérios para a expansão do mercado mundial. O pós-guerra foi marcado por um movimento mundial a favor da reforma agrária (que se expande na China, tanto a continental como em Formosa, no Japão, na Coréia, na Indochina, na Índia e em outros casos menos importantes) que integraram ao mercado mundial milhões de camponeses. Da mesma forma, governos progressistas (os chamados populismos!) aumentaram a participação dos trabalhadores na vida econômica de grande parte do chamado Terceiro Mundo.

Esta extensão dos mercados do Terceiro Mundo acrescentava-se à expansão dos mercados nas economias centrais alcançadas com a consolidação do Estado do Bem-estar, a fixação do dólar como moeda mundial e a expansão dos investimentos americanos pelo mundo todo. Esta expansão, realizada por empresas multinacionais e apoiadas nas políticas estatais desenvolvimentistas, incorporavam as inovações revolucionárias nas forças produtivas acumuladas pela revolução científica-técnica que se desabrocha durante a década de 1940. Estas inovações se fazem possíveis economicamente pela vontade dos povos e governos, expressada durante a guerra e no pós-guerra, depois de terem sido reprimidas pela longa crise da economia mundial entre as duas guerras mundiais.

O crescimento desses investimentos permitiu criar uma base industrial nas antigas zonas agrárias do mundo. Mas estas indústrias estavam voltadas para os mercados internos que se expandiam com as reformas sociais já citadas. Mas em 30 anos de expansão foram-se alcançando áreas do mundo onde as reformas sociais já não eram bem-vindas para o sistema mundial. As mudanças sociais ganhavam dimensões muito mais profundas que as aceitáveis pelo sistema socioeconômico dominante – o capitalismo sentia-se ameaçado pelo conteúdo antiimperialista e socializante do movimento reformista mundial. Com isto, a expansão dos mercados mundiais se fazia muito cara e perigosa.

Era mais seguro reestruturar o conjunto do sistema mundial em outra direção. Tratava-se de oferecer o mercado dos países centrais às industrias emergentes nas economias mais dinâmicas do Terceiro Mundo (os chamados new industrial countries – os NICs) provendo uma nova divisão internacional do trabalho. O que não foi possível medir muito claramente foi o fato de que a criação de núcleos industriais nessas regiões daria origem também a um novo poder de geração de tecnologias próprias que permitiria a alguns desses países iniciar uma concorrência séria com o centro do poder mundial.

Isto é o que acontece durante os anos recessivos de 1966 a 1994 (fase B de ciclos de Kondratiev) quando o Japão sobretudo e em parte os tigres asiáticos inauguram a nova fase das forças produtivas mundiais caracterizadas pela incorporação dos robôs ao sistema produtivo. A recuperação da China e Índia as transforma na atualidade em potências industriais exportadoras. A expansão dos centros industriais e a nova divisão internacional do trabalho que vai se armando já não pode deter-se.

Poucos puderam apreciar o impacto antiinflacionário dessa mutação. Com a robotização e os novos materiais, os preços dos produtos industriais baixam drasticamente, os gastos maiores estão nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, marketing, gestão. Esta situação abre caminho à cópia de produtos a preços ínfimos. Os monopólios se vêm frente a frente com uma rebaixa drástica das barreiras de entrada. As novas potências começam a ameaçar os monopólios centrais da economia mundial e os excedentes financeiros conseguidos com os superávits comerciais substituem poderes econômicos que se pensavam totalmente estáveis. Estão asseguradas as condições para um boom econômico de médio prazo. Este é o período atual. Crescimento econômico com tendências deflacionárias e queda de custos de investimento em nível mundial. Desvalorização da enorme massa de capital financeiro acumulado no período recessivo. Luta crescente pelo controle da economia mundial. Os que acreditam que um longo auge econômico significa tranqüilidade à vista estão muito enganados.

- Theotonio dos Santos
Autor da trilogia sobre a economia contemporânea: Teoría de la Dependencia: balance y perspectivas, Plaza y Janés, México, Sudamericana, Buenos Aires; Economía Mundial e Integración Latinoamericana, Plaza y Janés, México; Del Terror a la Esperanza: Auge y Declinación del Neoliberalismo, Monte Ávila, Caracas.
https://www.alainet.org/pt/articulo/118879
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