(Neo)colonialismo pandémico

As dinâmicas de dependência neocoloniais continuam absolutamente evidentes. A Covid-19 só as pôs ainda mais a nu.

29/04/2021
  • Español
  • English
  • Français
  • Deutsch
  • Português
  • Análisis
bangalore.jpg
Lojas encerradas na cidade de Bangalore, Índia
Foto: JAGADEESH NV / EPA
-A +A

O Reino Unido já não está em pandemia, dizem especialistas citados pelo Telegraph. A situação evoluiu de tal maneira positivamente, que as infecções poderão reduzir-se em 90% com a vacinação. E 49,8% da população já recebeu a primeira dose da vacina. Fazendo eco do relatório apresentado pela equipa da COVID-19 Infection Survey, uma parceria entre a Universidade de Oxford, o Instituto de Estatísticas Nacionais e o Departamento de Saúde e Acção Social, o primeiro-ministro do País de Gales disse: «Na sua definição, neste momento não estamos mais numa pandemia. Continuo a avisar que isto não é uma rua de sentido único». Isto é, as coisas podem sempre voltar a piorar.

 

Mas é um facto, como o estudo revela, que a redução em infecções e infecções sintomáticas é muito significativa após a segunda dose da vacina (70% e 90%, respectivamente). Entrando então no que seria um momento de «endemia» de Covid-19, os especialistas no Reino Unido explicam que um reforço da vacinação no Outono vai ser certamente necessário para a continuação do controlo das infecções e redução da mortalidade. E, depois disso, talvez anual.

 

Entretanto, a antiga colónia jóia do império britânico, a Índia, que antes produzia os diamantes para a coroa dos reis ingleses e que agora produz uma enorme percentagem de vacinas para o Ocidente, ironicamente também produz muitas das que os britânicos estão a tomar. O sector farmacêutico da Índia representa 50% do consumo global de vacinas, 40% do mercado de genéricos dos EUA e 25% de todos os medicamentos do Reino Unido. O país está a braços com uma escalada de infecções e mortes brutal e devastadora. São já 16 milhões de infecções, 340 mil casos por dia. As notícias dão conta de um inferno, em tudo igual ao que temos vindo a assistir no Brasil: novas variantes do vírus (neste caso «mutante»), pacientes sem oxigénio, incêndios em hospitais, cremações em massa.

 

No podcast semanal de comentário anti-capitalista, «Give the people what they want», Prasanth R dizia, em conversa com o investigador Vijay Prashad (director da Tricontinental) e a jornalista Zoe PC, que «assistimos ao colapso total» do serviço de saúde na Índia. «Basicamente, as pessoas estão a lutar por si mesmas.» A verdadeira extensão da crise é «muito, muito pior», diz Prasanth R. E tudo isto é «responsabilidade do governo» que, no início do ano, anunciou «que o pior já tinha passado», não se preparou convenientemente com camas, ventiladores e oxigénio para uma possível (e provável) segunda vaga e permitiu celebrações religiosas sem qualquer controlo. Vijay Prashad lembra que Kerala foi um dos estados que melhor se preparou e hoje «exporta» oxigénio para outros estados da Índia, sobretudo no norte, onde está o epicentro da crise. «O governo central de Nova Delhi, liderado por Narendra Modi, tem uma atitude completamente negligente em relação ao investimento em infraestrutura», diz Prashad. «A “variante indiana” é a privatização da economia».

 

Isto é em tudo idêntico ao Brasil: a extrema-direita mata, a política de extermínio de Bolsonaro e Modi são irmãs. As previsões no Brasil estão já no milhão de mortes até Outubro. A variante brasileira já alastrou por toda a América Latina e está exponencialmente a ceifar vidas no Peru, na Colômbia, na Venezuela. A Venezuela tem dinheiro retido no BES, no banco de Londres e nos EUA devido às sanções. O país precisa do dinheiro para comprar medicamentos e para entrar com fundos na Covax (iniciativa de partilha de vacinas dos países ricos com países pobres ou menos ricos, apoiada pela OMS). Só que a Covax no continente americano é gerida pela Organização de Saúde Pan-Americana, que espera da Venezuela o pagamento de 100 milhões de dólares para que o país possa receber entre 1,4 e 2,4 milhões de doses da AstraZeneca que lhe foram destinadas. Depois há quem se admire da razão pela qual Cuba não participa do Covax e tenha decidido desenvolver, diante de uma gravíssima crise económica, as suas próprias vacinas.

 

Vários países que deveriam beneficiar da Covax receberam apenas um quinto das vacinas programadas até Maio. Neste caso é a AstraZeneca, que curiosamente é a vacina da grande maioria da população no Reino Unido. Países grandes como a Indonésia e o Brasil receberam, até agora, uma em cada 10 doses da AstraZeneca que esperavam até Maio. Enquanto o Bangladesh, México, Myanmar e Paquistão não receberam absolutamente nenhuma.

 

Mas não são só os britânicos. O headline do Guardian na tarde de sexta-feira era sintomático: «Índia vê número global de casos aumentar pelo segundo dia; UE assina maior acordo do mundo em vacinas com a Pfizer.» Enquanto num lado se preparam crematórios e se abrem valas comuns, noutro um poderoso bloco económico-financeiro assina um acordo com a vacina mais cara do mercado. Mas até nisso dos contratos entre as vacinas e os Estados há relações neocoloniais: diferentes países estão a pagar diferentes preços por elas. A África do Sul, por exemplo, revelou em Janeiro estar a pagar 5.25 dólares/dose pela AstraZeneca, mais do dobro do que a empresa cobrou à União Europeia (2.15 dólares/dose), segundo a revista semanal do sindicato de Médicos no Reino Unido, BMJ.

 

A Organização Mundial do Comércio, reunida na semana passada, recebeu um pedido urgente de mais de 100 países (liderados pela Índia e pela África do Sul) para libertar as patentes das vacinas contra a covid-19. A proposta encontrou forte oposição dos países ricos como EUA, Reino Unido, Canadá e UE, que argumentaram que as isenções desincentivam a «inovação» e podem prejudicar os interesses das grandes empresas farmacêuticas envolvidas na produção das vacinas. Também afirmam que a quebra de patentes irá desencorajar futuros investimentos. A jornalista Valentina Lares explicava, num artigo no portal Persuasion, que enquanto os países ricos continuam a acumular vacinas sem as distribuir, a Rússia prossegue a sua «diplomacia de Sputnik»: sem que ninguém lesse muito sobre a notícia, a Argentina tornou-se no primeiro país da América do Sul a produzir a vacina russa. A União Africana confirma ter recebido a oferta de 300 milhões de doses da Rússia, que também já assinou acordos para produzir milhões de doses da Sputnik na China, no Brasil, Irão e na Sérvia.

 

De regresso ao Reino Unido, espera-se que os passaportes Covid estejam prontos a partir de 17 de Maio (menos de um mês), para britânicos com smartphone poderem viajar à vontade. Provavelmente para países tropicais em resorts de luxo, onde não terão qualquer contacto com pessoas infectadas ou que ainda não foram vacinadas. O Ocidente soube sempre aproveitar uma crise com oportunidade: o apartheid das vacinas não surgiu no vazio, já antes havia apartheid económico e social, dos países ricos a norte a viajar para o sul global para curtir praias e caipirinhas ao lado de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza. Também era assim no século XIX: um passaporte britânico era mais valioso do que qualquer outro, e o sol nunca se punha naquele grande império que agora foi recuperado com o Brexit. O (neo)colonialismo é um vírus, tomou contra do mundo como uma pandemia, e manifesta-se e propaga-se, incessante. Onde houver recursos a mão invisível do «progresso» está lá.

 

25 de Abril de 2021

https://www.abrilabril.pt/internacional/neocolonialismo-pandemico

 

 

 

https://www.alainet.org/es/node/212045

Del mismo autor

Suscribirse a America Latina en Movimiento - RSS