Vamos falar do golpe no Brasil, filho

16/05/2016
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 coliseo dilma
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São quatro e meia da madrugada. Acordo ansioso, angustiado e com uma profunda sensação de impotência. Tenho vontade de sair correndo, de gritar pela janela, de me encolher em um canto, de me tornar invisível, de começar a chorar. Em casa, todos ainda dormem. Já dei voltas e mais voltas. Nos últimos dias, minha cama parece uma montanha-russa, na verdade, um abismo, como a borda fina de uma queda infinita. E eu estou do lado do vazio, querendo chegar à terra firme, que está logo ali, a poucos centímetros, inalcançável. Sei que se olhar para baixo cairei. É melhor ignorar o fato de que meus pés estão apoiados sobre um imenso precipício. Penso em você, meu filho querido. Penso em tantos companheiros e companheiras, amigos queridos desses vinte e cinco anos de Brasil. Penso que não posso, que não podemos começar este dia de infâmia, de ignomínia e de vergonha mostrando desesperança ou desequilíbrio. Penso que não posso, sei que não quero, que este seja o primeiro dia da nossa derrota, mas sim o primeiro da nossa próxima vitória.

 

Quero e preciso escrever para você antes que chegue o fim um dia que será lembrado como um dos mais nefastos e desonrosos da história democrática da América Latina: o dia em que derrubaram Dilma Rousseff sem outro argumento que o da prepotência da mentira, sem outro mecanismo que a infâmia, sem outro objetivo que continuar fazendo do Brasil uma terra de privilégios, de abusos e de impunidade. Sei que não preciso lhe explicar nada, que com seus dezoito anos você já sabe muito bem o que está acontecendo neste país que, por ser seu, tornou-se meu, embora por vezes você não entenda como, depois de tantos anos, eu ainda não aprendi a pronunciar certas palavras em português.

 

Quando você nasceu, eu já estava no Brasil há sete anos. Contudo, enquanto você crescia, comecei a compreender que nós nascemos em um país, mas às vezes renascemos em outro. E que ver você crescer, ter a alegria infinita de ter compartilhado com vocês esses anos, fez com que, entre outras coisas, o Brasil ficasse tatuado na minha pele, marcando-a indelevelmente com uma de suas tantas identidades, a dignidade, essa que não dá chance à adversidade porque sabe que o pessimismo foi inventado pelos poderosos para continuar no poder. Você fez o Brasil ficar marcado no meu coração, oferecendo-me essa generosidade cosmopolita própria das ilhas e não dos continentes, essa solidariedade que hoje parece tão distante, tão alheia. Hoje, sinto-me um brasileiro morando em um país estranho, irreconhecível, indescritível.

 

Todos (ou quase todos) têm uma pátria. Eu tenho a sorte de ter duas. Com você, tornei meu o Brasil da solidariedade, o Brasil da luta pela justiça, pela liberdade e pelos direitos negados historicamente às grandes maiorias. O Brasil dos que não se resignam a aceitar a derrota do bem comum, o Brasil dos da Silva, o Brasil dos que nasceram sem nada além de suas mãos e da posse de seus princípios, sem nada além de seu trabalho e da valentia necessária para reconstruir uma nação que quase sempre os tratou com desdém, um país no qual quase sempre triunfou a infâmia, que os estigmatizou e humilhou, que os desprezou e ignorou. O Brasil dos Joãos e das Marias, o Brasil desses a quem nunca foi permitido falar, porque se supõe que não têm voz, que não sabem o que dizer ou que simplesmente não existem porque ninguém os ouve gritar. O Brasil daqueles que, neste momento, quando ainda não amanheceu, não escrevem como eu suas impotências, mas estão indo trabalhar, como fazem todos os dias, há tantos anos e desde estão cedo na vida, sabendo que poderá faltar até mesmo a comida para alimentar seus filhos, mas nunca aquilo que sempre faltará aos donos do poder e da palavra: a dignidade necessária para olhar o futuro sem sentir vergonha.

 

Quero escrever a você porque acredito que é necessário compartilharmos um esforço comum para entender o que aconteceu. O que aconteceu com o país e o que aconteceu conosco. Certamente será necessário registrar os fatos, a sequência de eventos que se seguiram nos últimos meses, muitos deles surpreendentes e outros morosos, soporíferos, de tão repetitivos e monótonos. Fazer isso será algo necessário e essencial, é verdade. No entanto, creio que nós também precisamos fazer um grande esforço e, certamente, muito doloroso, para entender quais foram as causas que nos trouxeram até aqui. A reflexão e o conhecimento são fundamentais para a luta política. E a análise de nossas ações, a reflexão sem desculpas do que nós mesmos fomos capazes ou incapazes de fazer para evitar determinadas derrotas é absolutamente essencial para iniciar as lutas que virão, sem repetir as tragédias e farsas da história que teremos de viver.

 

O conhecimento e a crítica são ferramentas políticas. Se não as aplicarmos a nós mesmos, correremos o risco de viver momentos ainda mais sombrios. Hoje, após o que será um dia de hipocrisia e de infâmia, depois que o senado brasileiro tiver dado início à destituição de Dilma Rousseff, será necessário pensar coletivamente, de forma urgente, aberta e sem concessões, procurando compreender por que tudo isso aconteceu.

 

Os últimos trinta e cinco anos da história do Brasil foram marcados pelo protagonismo e pela liderança do Partido dos Trabalhadores (PT) nas grandes conquistas democráticas de um país que saía de uma das ditaduras mais longas da América Latina. O PT não foi o único responsável por essas grandes realizações, é verdade. Sem ele, entretanto, sem suas lutas, seus líderes, seus membros e, em particular, duas grandes organizações como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Sem Terra (MST), não é possível compreender e interpretar os avanços e retrocessos da democracia brasileira nas últimas décadas.

 

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da república, em janeiro de 2003, foi o resultado e a cristalização de avanços significativos no processo de democratização vivido pelo Brasil desde o fim da ditadura militar, em meados da década de 80. Contrariando as previsões preconceituosas e desqualificadoras daqueles que pensavam que o destino da maior nação da América Latina não podia estar nas mãos de um torneiro mecânico de origem rural e sem estudos universitários, Lula transformou o Brasil em uma nação com um enorme reconhecimento internacional, com um potencial econômico e de desenvolvimento social nunca antes visto na história do país. A sociedade brasileira veria pela primeira vez sua pátria se tornar uma potência mundial com espaço, prestígio e não pouca admiração no cenário global, graças à combinação de políticas de inclusão social que tirariam milhões de pessoas da pobreza extrema, poria fim ao flagelo da fome, multiplicariam o acesso a direitos fundamentais historicamente negados e promoveriam uma distribuição de riqueza sem precedentes no continente. Uma nação que faria valer sua posição estratégica em um novo cenário mundial, sem repetir a histórica subordinação aos interesses intervencionistas norte-americanos, e expandiria o horizonte do multilateralismo, apoiando um forte processo de integração latino-americana. Uma nação que, pela primeira vez, estabeleceria uma forte e ativa relação econômica, política e científica com os países africanos, eternamente desprezados pela diplomacia dominante brasileira.

 

É um fato curioso que esse progresso impressionante do Brasil durante a última década seja desconsiderado em nosso próprio país, ou quando reconhecido seja atribuído à sorte de se ter vivido uma conjuntura econômica excepcionalmente favorável, com a alta dos preços das commodities, particularmente do petróleo, do minério de ferro, da soja e de outros insumos primários, base das exportações brasileiras. O Brasil não mudou sua matriz produtiva nem sua estrutura tributária, um problema grave para o presente e para o futuro do país, mas de fato transformou radicalmente as prioridades de investimento do fundo público e de estabelecer sem concessões  quem deveria estar no centro das prioridades do orçamento nacional: os pobres e as necessidades acumuladas por uma dívida social endêmica.

 

Sei que você reclama e afirma, com razão, que nós não fizemos a revolução que tantas vezes prometemos. Mas o nosso governo, o governo daqueles que lutam por mais justiça social, por fazer avançar os processos de construção da igualdade e da expansão da cidadania, de maior liberdade, autonomia e participação democrática, fez com que em menos de uma década o Brasil deixasse de se comportar como uma nação indiferente às demandas, necessidades e direitos fundamentais do povo; que o Brasil deixasse de se mostrar como uma nação subalterna, colonial e dependente diante dos Estados Unidos e das outras potências imperiais do planeta; que se posicionasse diante do mundo como uma nação responsável, soberana e fundamentalmente disposta a reverter o legado de exclusão, miséria e abandono que carregavam sobre seus ombros os setores populares urbanos, os trabalhadores e trabalhadoras rurais, a população negra, as classes médias emergentes e as comunidades indígena.

 

Não foi uma revolução, ou talvez tenha sido, porém diferente daquela que um dia imaginamos fazer. Quando Lula tomou posse da presidência, em seu discurso histórico de 1 de janeiro de 2003, ele declarou que seu sonho era viver em um país no qual as pessoas comessem pelo menos três vezes por dia. Para aqueles que nunca sentiram a tirania da fome e, ao contrário, exercitam descaradamente seu direito à gula, talvez fosse considerada uma trivialidade populista lutar pelo programa “Fome Zero”. Para aquela esquerda, convencida de que o nirvana da revolução só pode ser alcançado após a aniquilação da burguesia e a derrota definitiva do capitalismo, lutar contra a fome talvez pareça muito pouco heroico. Mas garanto a você que, para os mais de cinquenta milhões de brasileiros e brasileiras para os quais ter um emprego passou a ser um direito, para quem ter acesso a escola, habitação decente ou cuidados médicos básicos passou a ser uma oportunidade real, para eles, filho querido, o que estava acontecendo no Brasil foi algo absolutamente extraordinário e inédito. Certamente não acho que só isso foi importante, mas também o fato de que os mais pobres não tenham acreditado que tudo isso aconteceu graças à generosidade de um Deus, de um líder salvador ou de uma oligarquia paternalista, mas sim como fruto da política e de um Estado que, pela primeira vez, reconhecia-os em sua qualidade de cidadãos e cidadãs. Sei que essa não é a revolução com a qual sempre sonhamos. E espero que não se transforme na única revolução que você e sua geração pretendam realizar em um país que, agora, parece teimar em voltar ao passado, em repetir sua história de injustiça e desprezo pelos mais pobres.

 

O Brasil se transformou e deu início a um processo de modernização social. O mundo reconheceu e compreendeu que, sem nenhuma sombra de dúvida, os grandes arquitetos dessa mudança foram Lula e o Partido dos Trabalhadores.

 

Mas ninguém é profeta em sua própria terra, nós já sabemos disso. A direita brasileira odeia Lula. Ela o odiava antes que ele vencesse as eleições em 2002; ela o odiou durante e após seus dois mandatos presidenciais. Lula sabe que a direita o odeia e que manifesta seu desprezo para com ele e as realizações de seus governos por meio das organizações em que atua: obviamente, os partidos conservadores, as corporações empresariais, algumas das igrejas evangélicas inquisidoras e corruptas, bem como setores dos meios de comunicação, da justiça e das forças de segurança. A direita não o odeia apenas por ser de esquerda ou porque ele pertence a um partido socialista que transformou a esquerda latino-americana. Não. Eles o odeiam porque Lula ampliou direitos e multiplicou oportunidades de desenvolvimento, bem-estar e progresso social para milhões de brasileiros e brasileiras que haviam nascido em um país que os queria calados, silenciados, submissos, invisíveis. Eles o odeiam por ter chegado ao poder e não ter se transformado em mais um na lista de ditadores, medíocres, covardes, incompetentes, mentirosos, medrosos e traidores que compõem grande parte da galeria dos presidentes do Brasil desde a proclamação da república.

 

O que certos setores mais dogmáticos da esquerda não entendem é como a direita o os grandes grupos econômicos odeiam tanto Lula se seu programa de reformas sociais não interferiu nas estratégias dominantes de acumulação e reprodução do capital durante a última década. Os mais ricos não deixaram de ganhar nos últimos anos; ao contrário, alguns aumentaram suas fortunas. Os níveis de desigualdade, embora tenham diminuído, não alteraram a estrutura profundamente injusta de distribuição da riqueza, do poder e dos benefícios. O que essa esquerda supõe é que, pelo fato de Lula não ter desestabilizado as bases de sustentação do capitalismo vernáculo, o poder econômico, os grandes monopólios de imprensa ou a própria política conservadora deveriam venerá-lo. Não vou pedir que você faça o que eu, quando tinha sua idade, fui incapaz de fazer. Mas quero advertir-lhe a sempre desconfiar das explicações políticas ou sociológicas que parecem simples demais, das análises nas quais não se identifica nenhuma curva, nenhuma margem para dúvidas. A esquerda dogmática está enganada a esse respeito, como quase sempre está enganada, no Brasil e em todos os lugares.

 

A direita não luta apenas para que seus interesses não sejam questionados; não luta somente para não parar de ganhar nem para continuar a acumular mais riqueza, ou para manter seus interesses inalterados. Ela luta por algo mais: impedir que uma política qualquer acabe desestabilizando ou ameaçando, por meio da ampliação das oportunidades e dos direitos dos mais pobres e excluídos, as estruturas de poder sobre as quais se sustenta um sistema injusto e desigual que pertence a eles e o qual não querem mudar. Não se trata só do capitalismo, mas do capitalismo praticado nos trópicos, o capitalismo selvagem, incapaz inclusive de conviver com uma democracia que seja algo mais do que o comércio de votos entre candidatos insípidos e obedientes. Quando, na América Latina, a democracia produz resultados democráticos, quando serve para afirmar os direitos dos cidadãos, essa democracia é anulada e surgem os golpes de Estado. Desta vez, sem a presença dos militares. Assim como acontece em uma caçada, é uma questão apenas de esperar o momento certo. A democracia está cercada pelos poderes que pretendem transformá-la em uma sombra do que deveria ser, em uma caricatura grotesca, sem conteúdo ou adjetivos que lhe deem alvo e sentido. A classe dominante se convenceu de que se não é possível vencer a democracia, é preciso esvaziá-la. Transformá-la em algo que seja desprezível, desnecessário, em uma sinfonia de procedimentos distanciados da realidade das pessoas. Inútil como uma plataforma mínima a partir da qual sonhar e imaginar um mundo mais justo, mais livre e igualitário. Uma democracia que, afinal de contas, não interesse a ninguém. Uma democracia anoréxica, sem graça, fútil, frívola, insignificante.

 

Se você se opuser a isso, terá de enfrentar o poder. E esse campo político que chamamos esquerda nasceu para fazer isso: enfrentá-lo.

 

É por isso que odeiam Lula e farão tudo que estiver ao seu alcance para destruí-lo. Não tem a ver com uma pessoa. Trata-se de um projeto, de uma utopia, de uma esperança que está em jogo. Não é um homem, é um horizonte. Não é Luiz Inácio que os aterroriza, são os Lulas que estão por vir.

 

E caberá a você e a sua geração inventá-los.

 

Sim, eu já sei. Imagino sua expressão de tédio ao ler isto. Você me dirá que só sei falar de Lula, contar suas histórias e relatar os feitos de seu governo. Mas que a presidenta é Dilma, e que o “nosso” governo não ia nada bem.

 

É verdade. O segundo mandato de Dilma começou com um grande erro estratégico, em um momento no qual as condições políticas e econômicas haviam mudado significativamente. Após o apertado resultado das eleições que lhe garantiram a vitória em outubro de 2014, o governo se transformou no defensor de uma maior disciplina fiscal, abandonou os mecanismos participativos e consultivos da política pública, que haviam sido criados durante a gestão de Lula, além de se aproximar estreitamente das perspectivas e enfoques daqueles que assessoram, interpretam e determinam os humores do mercado. Para isso, colocou à frente do Ministério da Economia um exímio neoliberal e lhe deu carta branca para avançar em uma severa política de ajuste fiscal. Se a estratégia era ganhar amigos, o que se conseguiu foi perdê-los por todos os lados. A direita correu pela esquerda, a esquerda não soube para onde correr, e quase ninguém acreditou na promessa de que era possível reduzir drasticamente os gastos públicos sem mexer nos programas sociais.

 

Dilma Rousseff sempre foi uma excelente administradora, uma militante inabalável e uma lutadora corajosa. Ela é, também, uma pessoa extraordinária, dura e exigente, mas generosa, comprometida e dedicada de corpo e alma à construção de um Brasil mais justo, mais democrático e igualitário. O desprezo com o qual a trataram nos últimos meses é muito mais do que uma rejeição aos caminhos assumidos por seu novo mandato. É uma reação que pode ser explicada no contexto de um fascismo social emergente e a partir de um exercício ensurdecedor de misoginia, de um machismo descontrolado, de pura humilhação pelo simples fato de Dilma ser mulher. Sim, é fato que se ela fosse homem provavelmente também buscariam meios de destituí-la. Mas não creio que se assim fosse teríamos visto se multiplicarem as mais diversas formas de desprezo que foram manifestas nestes dias no parlamento, por alguns meios de comunicação e certos inquisidores evangélicos, com a mais absoluta impunidade.

 

Não é por acaso que a representação de mulheres no Congresso brasileiro tenha diminuído, e que algumas das poucas que nele têm seus cargos o façam como representantes de seus maridos, também políticos profissionais. Não é por acaso que quase não se tenha negros, e menos ainda mulheres negras, ou indígenas, e menos ainda mulheres indígenas, ou jovens, e menos ainda mulheres jovens. É um fato escandaloso que esse parlamento misógino, machista e recheado de preconceitos, onde a Bíblia é mais citada do que a Constituição, tenha metade de seus membros processados por corrupção e que quem contava os votos a favor da destituição de Dilma tenha sido condenado por trabalho escravo, sendo apresentado diante da sociedade como um grande defensor da democracia.

 

Dilma Rousseff consolidou e expandiu as reformas sociais dos dois primeiros governos do PT. Sua política de atendimento sanitário com o programa “Mais Médicos”; seu inovador e abrangente programa popular habitacional “Minha Casa, Minha Vida”; seu programa de obras públicas e de infraestrutura; sua política educacional, com foco na educação técnica e profissional, mas também com um amplo desenvolvimento da política cientifica e do programa “Ciência sem Fronteiras”, que se tornou a maior iniciativa mundial de internacionalização de estudantes, foram marcos da maior relevância no desenvolvimento de uma política de inclusão social e de promoção da cidadania.

 

Agora, meu filho, você está se preparando para entrar na faculdade. Há 12 anos, o Brasil tinha cerca de três milhões e meio de estudantes universitários. Hoje, estamos chegando a quase oito milhões. Em uma década, a matrícula universitária dobrou. Pouquíssimos países do mundo conseguiram isso em tão pouco tempo. E o Brasil conseguiu porque houve uma decisão política fundamental: permitir que milhares e milhares de jovens de setores populares, filhos e filhas de trabalhadores, empregadas domésticas, agricultores e agricultoras, jovens de comunidades indígenas e em particular jovens negros e negras, ingressassem pela primeira vez no ensino superior. O Brasil tem hoje um sistema universitário muito melhor que há uma década. E é muito melhor porque é muito mais justo e democrático, embora ainda existam muitas coisas que precisamos fazer para melhorar nossas universidades.

 

As elites nunca perdoam aqueles que democratizam o acesso à universidade, essa instituição que sempre foi considerada por eles como sua propriedade e privilégio. As elites não gostam que questionem seu direito sobre o que acreditam que lhes pertence, embora o tenham roubado.

 

Dilma pode ter se empenhado em criar um plano econômico que não assustasse os setores do poder oligárquico nacional, os especuladores internacionais (que se fazem ser chamados de “investidores”) e aqueles que publicam suas opiniões, fazendo-as passar pela opinião pública. No entanto, também não a perdoaram por colocar em ação um programa de cuidados básicos de saúde que, dada a baixa resposta dos médicos brasileiros, trouxe médicos de Cuba, da Espanha e de toda América Latina. Não a perdoaram por ter garantido o direito a uma moradia digna para famílias que, ao que parece, deveriam ter tido apenas a oportunidade de viver em casas de papelão e lata, empilhadas, correndo o risco de morrer enterradas pela lama após a primeira chuva de verão. Dilma pode ter colocado no ministério de economia o banqueiro mais neoliberal do mundo, mas jamais a perdoaram por ter ousado tirar os pobres do lugar que as oligarquias lhes impuseram ocupar.

 

Por que prosperou o impeachment, que os senadores estão votando enquanto escrevo estas linhas? Isso, talvez, quase todo o mundo já saiba. A oposição encontrou uma maneira de trazer um partido aliado do governo para o seu pelotão golpista. Assim, o PMDB, partido que sempre esteve no poder nos últimos trinta anos, aderiu sem remorsos ao golpe institucional, sabendo que seria seu principal beneficiário.

 

O PT havia se aliado ao PMDB e a outros partidos conservadores, possibilitando as articulações que lhe permitiriam chegar ao poder nas eleições de 2010 e de 2014. A democracia é sempre uma estratégia de alianças, e aquele que quer ganhar precisa negociar. Mas o negociar tem seus riscos, especialmente se a negociação é com um partido venal, repleto de corruptos e cuja virtude democrática mais brilhante é a de praticar o oportunismo, tentando estar sempre e em todas as circunstâncias perto do poder. Sob o esmagador impulso do PT para ganhar as eleições de 2010, Michel Temer integrou a fórmula presidencial com Dilma Rousseff. O PMDB alcançaria assim uma enorme influência no terceiro mandato petista. As eleições de 2014 encontraram o PMDB dividido e um setor do partido, liderado pelo próprio Temer, disposto a não correr o risco de perder os espaços conquistados. O casamento com o PT se manteve.

 

As alianças, filho querido, são o grande mistério da democracia. A grande oportunidade e também a grande armadilha. Sem alianças é impossível chegar ao paraíso, o Éden do poder. Mas nunca se esqueça de que o caminho para o inferno está semeado de alianças que falharam e de pactos que nunca foram cumpridos. Já no século XVII, o cardeal Jules Mazarin advertiu que a arte da política é a arte da traição. Desde então, até hoje, há aqueles que lutam para mudar a política, inventando uma nova forma de ação coletiva e de administração daquilo que pertence a todos, do público, do comum, uma política construída sobre outros valores e outras práticas. O PT foi o partido que ensinou a muitos da minha geração que isso era possível. Não acredito que tenhamos conseguido. Ou, talvez, mal tenhamos começado.

 

O que chama a atenção é que ainda existam alguns que se surpreendam ou se indignem porque Temer traiu Dilma, quando todo o conjunto da oposição, com a indiferença do Supremo Tribunal Nacional, encontrou a chave do cofre da felicidade e, simplesmente, inventou um crime para dar início ao processo de impeachment. Temer não se tornou um “traidor” diante da oportunidade eminente de chegar à presidência sem ter sido eleito para isso. Não. Aqui, a ocasião não faz o ladrão. O PT precisava de Temer e do PMDB para ganhar as eleições nacionais em 2014. E o PMDB e Temer precisaram de um ano e quatro meses do governo de Dilma Rousseff para arrancar-lhe o cargo das mãos. Que isso tenha sido feito a partir de uma mentira, de um artifício pseudojurídico, de uma farsa ou um grande fiasco, a poucos importa. Assim é a mágica da maioria. Se 367 deputados dizem que houve crime e 137 dizem que não houve, o que aconteceu foi um crime. Talvez a única coisa boa nesse domingo fatídico no qual os deputados brasileiros deram início à destituição de Dilma, foi conhecer a cara desses deputados, muitos dos quais sequer tiveram votos, mas estão lá pela lógica do reboque de candidatos estrelas. Se dou meu voto, por exemplo, para o palhaço Tiririca, também dou meu voto a um conjunto secreto e desconhecido de candidatos bem mais patéticos do que o próprio Tiririca, que serão eleitos com 20 ou 30 votos. Talvez nada disso tenha a menor importância para alguém que vota no palhaço Tiririca, afinal, nem sempre a democracia parece mais séria do que um bom espetáculo circense.

 

Por que se deveria confiar em Michel Temer?

 

Um provérbio africano diz que a história não é escrita pelos leões, mas pelos caçadores. Temer finalmente conseguiu ressurgir das cinzas de seu até então medíocre, sem brilho e banal exercício do poder. Uma presença sombria em Brasília que despertava apenas o esporádico interesse da revista Caras. Até algumas poucas semanas atrás, parecia tão esperto quanto o ex-presidente argentino Fernando de la Rua. Hoje, parece mais com Franklin Delano Roosevelt.

 

O poder e a imprensa fazem milagres, meu filho.

 

Machismo? Uma mulher que exerce suas funções de controle com firmeza e não se deixa derrubar pela adversidade geralmente é motivo de desprezo por parte de empresários, políticos e jornalistas misóginos que não perderão a chance de fazer piadas, criar rumores ou inventar histórias sobre sua sexualidade. Assim foi tratada Dilma desde que assumiu seu primeiro ministério no governo de Lula, mais de dez anos atrás. Mas agora tudo mudou. Temer é casado com uma mulher branca e loira, 43 anos mais jovem do que ele, “muito feminina”, como a descrevem, sem outra ambição pessoal além de cuidar do lar. Ele, um homem vigoroso, potente, de quase oitenta anos, mas cheio de vitalidade em sua capacidade reprodutiva. Ela, dedicada à sua casa, prolífera, atenciosa, disciplinada, que sabe ocupar seu lugar. Uma combinação perfeita. O casal que o Brasil precisa para sair da crise.

 

Até poucas semanas atrás, Michel Temer parecia menos sedutor do que o Incrível Hulk. Hoje, parece o George Clooney.

 

O poder, a misoginia e o Photoshop fazem milagres.

 

Michel Temer não é Frank Underwood, embora em Brasília se viva a dramatização amazônica de House of Cards, com Chespirito e Cantinflas.

 

Mas, filho, desculpe, acho que me desviei do que realmente queria lhe dizer. O que pretendo explicar-lhe é que não houve improviso, espontaneidade nem sorte inesperada. Havia um plano: acabar com o governo Dilma e com o PT. Um plano que seguirá seu curso. Um plano que não vai acabar até que eles possam, definitivamente, impedir que Lula chegue à presidência da república pelo voto popular em 2018. Nessa linha, continuarão as questionadas investigações do juiz Sérgio Moro, do procurador-geral Rodrigo Janot, e de todo funcionário, político, delinquente ou delator que pretenda conquistar o Globo de Ouro da justiça brasileira: mostrar que Lula é corrupto.

 

Sim, eu sei: a corrupção. Cheguei até aqui sem mencionar até agora a palavra “corrupção”. E não porque quis me esquivar do assunto que hoje, para muitos, dentro e fora do Brasil, explica por que Dilma está sendo destituída.

 

O sistema político brasileiro está infectado pela corrupção. A corrupção não é uma anomalia. Ela é um dos seus elementos constitutivos. É o que impulsiona boa parte dos interesses, relações, influências e preferências de um número significativo de representantes do povo, funcionários públicos, juízes e promotores, membros das forças de segurança pública e, especialmente, do mundo das grandes corporações. Claro que existem políticos, deputados, funcionários, juízes, promotores, policiais, militares e empresários honestos. Mas a corrupção é um dos combustíveis que acionam o sistema. E talvez o principal erro que tenhamos cometido na esquerda brasileira e latino-americana nos últimos anos tenha sido não nos colocar na frente, na vanguarda, como gostamos de dizer, do combate contra a corrupção. Deveríamos tê-lo feito cortando pela raiz qualquer responsável por corrupção entre nossas fileiras, doesse onde doesse, sem nunca deixar de emitir sinais claros sobre de qual lado estávamos. Nosso apoio a uma reforma política que evidencie que o atual sistema partidário promove a promiscuidade entre o mundo privado, os negócios e os interesses públicos, deveria ter sido muito mais explícito e determinado.

 

Deveríamos ter feito isso sem medo e, especialmente, sem culpa. Não para convencer os corruptos que existem dentro ou fora da política, que operam dentro ou fora da justiça, que atuam dentro ou fora das corporações. Deveríamos tê-lo feito por nosso compromisso com os setores populares, com as classes médias, com as pessoas que, neste país e em todo o nosso continente, trabalham honestamente e constroem sua dignidade cotidiana sem cometer nenhum delito. A imensa maioria das pessoas que compõe nossas nações são cidadãos e cidadãs honrados e bons. Os dirigentes de esquerda, quando deixam de se parecer com elas, começam a se parecer com os empresários, políticos, juízes e policiais cujo comportamento corrupto desejamos combater.

 

O PT foi o partido brasileiro que, desde o início do primeiro governo Lula e durante os dois mandatos de Dilma Rousseff, mais combateu a corrupção. Trata-se de um fato objetivo, concreto e irrefutável. Nunca se investigou tantos casos de corrupção; nunca a justiça e a polícia federal tiveram tanta autonomia; nunca tanto dinheiro roubado foi recuperado para os cofres públicos. Não acho que isso deva ser considerado um mérito, a menos que o comparemos com o fraco desempenho na luta contra a corrupção por parte dos governos anteriores.

 

O problema é que, na América Latina, quando a corrupção não é combatida, torna-se imperceptível. E, por outro lado, quanto mais ela é combatida, mais parece presente e mais parece invadir tudo.

 

É lamentável que o governo tenha pensado que, mesmo sem um relato sobre o que estava acontecendo, as pessoas entenderiam por osmose (ou porque haviam sido feitas boas políticas sociais) que o PT era o principal partido envolvido no combate à corrupção. E como o relato não foi feito pelo governo, a oposição o fez. Assim foi dito e boa parte da sociedade acreditou: a corrupção vem do PT e erradicá-la envolve livrar-se de seu governo.

 

Conseguiremos demonstrar agora que essa afirmação é falsa?

 

Certamente será difícil, mas precisamos tentar. Não é esse, meu filho, o único grande desafio que teremos pela frente. Precisaremos enfrentar um governo neoliberal, cuja composição e estrutura representarão um enorme retrocesso na história democrática do Brasil. Governarão agora aqueles que perderam as eleições nacionais há menos de dois anos. Os mercados, a imprensa dominante e as oligarquias os apoiam fortemente. Um amplo setor da sociedade, cansado da crise, talvez também os apoie. Não é preciso ter muita imaginação para prever o cenário que se aproxima: perda de direitos, retrocesso nas reformas democráticas, redução dos espaços de participação, privatização da esfera pública, criminalização do protesto social e exacerbação da intolerância. É a história se repetindo, desta vez em sua condição de farsa. Na década de noventa, o neoliberalismo chegou ao poder pelas mãos do apoio popular. Hoje, voltará apoiado nas muletas do golpe. Não acredito que a falta de dignidade nem a decadência ética sejam sentimentos que tirem o sono de grande parte dos funcionários do novo governo.

 

Mas a gravidade do momento que estamos vivendo não pode deixar espaço para o pesar, a angústia ou a perplexidade. Precisamos chorar nossas lágrimas em silêncio e nos recompor o mais rápido possível, a fim de lutar as lutas que ainda precisamos lutar. Hoje é um dia de infâmia para a democracia no Brasil e na América Latina. Mas dependerá de nós, em grande parte, que amanhã possa deixar de ser. Vamos ter de recolher os restos da batalha perdida e seguir em frente com dignidade e esperança, com convicção e valentia. As bandeiras da luta pela justiça social e a liberdade humana, a luta pela igualdade e o bem comum, continuam exigindo que as levantemos com orgulho e determinação. Os zapatistas dizem, querido filho, que as bandeiras existem quando existem mãos para fazê-las tremular, quando há mãos para erguê-las e fazê-las brilhar. Nossas bandeiras precisam de muitas mãos dispostas a erguê-las novamente e a lutar por elas. Convencer cada vez mais e mais pessoas, jovens e não tão jovens, de que essa é uma luta justa e necessária será uma das grandes batalhas que teremos de lutar. A luta por um mundo melhor começa aqui e começa agora, construindo um Brasil melhor.

 

Eu me formei politicamente na luta contra a ditadura e, em seguida, nas dinâmicas de mobilização que acompanharam o processo de transição democrática na Argentina dos anos 80. Aqui no Brasil, muitos jovens como você se formaram politicamente na luta pelas “Diretas Já”, exigindo seu direito inalienável de escolher sem mediação o presidente que deveria governar os destinos da nação.

 

Você nasceu à militância na luta contra a destituição injusta de uma presidenta honesta e valente, democraticamente eleita pelo voto popular. Eu aprendi a militar exigindo o regresso da democracia que haviam roubado de nós. Você está aprendendo a militar exigindo que não seja roubada a democracia que tanto sofrimento, morte e dor nos custou para conquistar.

 

Certa vez, Eduardo Galeano disse que a única coisa que se constrói de cima para baixo são os poços. O restante, principalmente o restante das coisas pelas quais vale a pena continuar vivendo, são construídas de baixo para cima. Nosso futuro é uma delas.

 

Nestes dias eu me lembrava daquela noite de outubro de 2002, quando Lula se consagrou presidente da república diante de José Serra, sucessor de Fernando Henrique Cardoso. Saímos para caminhar junto com um mar de gente, você, sua mãe e eu, na praia de Copacabana. O céu estava nublado de estrelas. As bandeiras vermelhas e as lágrimas de emoção desenhavam serpentinas de esperança nos rostos e nos corpos de milhares e milhares de brasileiros e brasileiras, que estavam dispostos, agora sim, a inventar uma nova nação. Eu carregava você em meus ombros e não parava de repetir que, depois do seu nascimento, aquele era, sem sombra de dúvidas, o dia mais feliz da minha vida.

 

Os senadores ainda estão votando e já anoiteceu. Dilma começará a deixar a presidência em poucas horas. A sessão não terminou, mas sinto um enorme desejo de voltar e percorrer com minhas lágrimas e minha bandeira vermelha aquela areia branca e aquele céu milagroso que nos acariciou quando para você tudo isso talvez parecesse simplesmente mágico. Venha, vamos juntos outra vez. Não prometo agora carregar você sobre os meus ombros. Mas o que prometo, querido filho, é que estarei ao seu lado, aprendendo novamente a lutar, aprendendo novamente a sonhar.

 

(Escrito entre a madrugada e a noite do 11 de maio de 2016, um dia infame)

 

- Pablo Gentili - Secretário executivo do CLACSO e professor da UERJ

 

15/05/2016

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Vamos-falar-do-golpe-no-Brasil-filho/4/36112

 

https://www.alainet.org/es/node/177488
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