Machu Picchu, cidade sagrada dos incas
20/11/2006
- Opinión
Em 1911, um arqueólogo estadunidense, Hiram Bingham, aos 36 anos, descobriu Machu Picchu, santuário inca situado no alto Amazonas peruano. Há dias, ali estive. Não há nenhuma outra relíquia da Ameríndia que se possa comparar à suntuosa beleza daquele lugar colado ao céu.
O império inca durou dois séculos (1300-1532), liderado por uma dinastia de doze incas, palavra que significa rei ou imperador, todos venerados por seus súditos como filhos do deus Sol.
Os conquistadores espanhóis, embora numericamente inferiores, lograram destruir, no século XVI, uma das mais sofisticadas civilizações indígenas. Movidos pela cobiça de ouro e prata, que para os incas só tinham valor ornamental, e por uma ótica religiosa que encarava todas as crenças não-católicas como idólatras, os sequazes de Pizarro exterminaram os incas. Assegurou-lhes a vitória a superioridade das armas, como arcabuzes e canhões, e as dissensões internas de um reino dividido entre dois irmãos, Atahualpa e Huáscar. Tivessem os espanhóis chegado em 1450, a história seria outra.
Maravilhados com o esplendor de Cuzco, capital do império inca, a mais populosa cidade da Ameríndia, os conquistadores entrevistaram os sobreviventes do holocausto indígena (que sacrificou em todo o Continente, apenas no primeiro século após o desembarque de Colombo, cerca de 25 milhões de nativos). Nem os velhos com mais de 90 anos fizeram qualquer menção a Machu Picchu.
Supõe-se que apenas um seleto grupo da nobreza inca tivesse conhecimento da existência da cidade sagrada, toda em granito, madeira e fibras vegetais, erguida a 2.350 metros de altitude, no ápice de um conjunto de íngremes montanhas de extraordinária exuberância, a mais inacessível região dos Andes. Possivelmente edificada em meados do século XV para servir de refúgio à nobreza inca, ameaçada por tribos amazônicas, Machu Picchu abrigava nobres, cientistas (astrônomos, botânicos, médicos etc.), sacerdotes e virgens consagradas ao Sol. Ali viveu, com certeza, Tupac Amaru, o último imperador inca, assassinado pelos espanhóis em 1572.
Em todo o reino, que se estendia do Equador ao Chile, as mais belas meninas de 8 e 9 anos eram enclausuradas em caráter perpétuo, dedicadas a confeccionar vestuários e utensílios domésticos. Algumas, após os 16 anos desposavam nobres ou eram somadas às concubinas do imperador. Outras, sacrificadas ao deus Sol em cerimônias religiosas. Um terceiro grupo permanecia a vida toda segregado do convívio social. É possível que Machu Picchu tenha sido, predominantemente, um santuário de virgens;
não tendo elas gerado descendentes, sonegou aos séculos vindouros a memória de sua existência.
Impressiona na cidade-santuário a perfeita harmonia entre a obra humana e a natureza. Os incas consideravam os acidentes geográficos entidades vivas e tinham agudo senso de equilíbrio ecológico. Possuíam avançados conhecimentos astronômicos, comprovados pela localização e arquitetura dos templos de Machu Picchu, cujas janelas marcam com precisão as mudanças de estações. A agricultura se fazia em terraços simétricos à encosta das montanhas e, por ali, ainda hoje são encontradas lhamas, animais usados para o transporte de cargas e que fornecem fios e couro.
Entre os documentos que nos atestam a história do império inca
destaca-se os “Comentários reais”, de Garcilaso de la Veja (1539-1616), filho de um capitão espanhol e de uma princesa inca. Nascido em Cuzco, deixou-nos uma curiosa condensação dos relatos ouvidos e colhidos sobre a saga inca. E Hiram Bingham escreveu “A cidade perdida dos incas”, onde
relata como a descobriu Machu Picchu.
O acesso à cidade só é possível a pé, pela trilha dos incas (quatro dias de caminhada de Cuzco até lá) ou por ferrovia, controlada pela Perurail, sob controle dos ingleses durante 40 anos. A viagem de trem, morosa, leva quatro horas, isso se os passageiros tiverem mais sorte do que eu e não encontrarem pela frente um piquete de peruanos que, em protesto contra a concessão aos ingleses, exigem o direito de também explorarem vias alternativas, como a abertura de rodovia através dos desfiladeiros andinos.
Se um dia existiu a utopia evocada por Thomas Morus, Campanella e Marx, de uma sociedade em que todos tinham seus direitos plenamente assegurados, sem dúvida foi em Machu Picchu. Ali se trabalhava para o proveito comum, sem que houvesse salário e pobreza. E quando os incas miravam o esplendor daquelas majestosas montanhas, com suas íngremes encostas e profundos desfiladeiros, enxergavam mais do que beleza
natural. Viam ali a Pacha Mama, a Mãe Terra, de cujo seio extraíam vida e a quem prestavam culto.
- Frei Betto é escritor, autor de “Sinfonia Universal – a cosmovisão de
Teilhard de Chardin” (Ática), entre outros livros.
O império inca durou dois séculos (1300-1532), liderado por uma dinastia de doze incas, palavra que significa rei ou imperador, todos venerados por seus súditos como filhos do deus Sol.
Os conquistadores espanhóis, embora numericamente inferiores, lograram destruir, no século XVI, uma das mais sofisticadas civilizações indígenas. Movidos pela cobiça de ouro e prata, que para os incas só tinham valor ornamental, e por uma ótica religiosa que encarava todas as crenças não-católicas como idólatras, os sequazes de Pizarro exterminaram os incas. Assegurou-lhes a vitória a superioridade das armas, como arcabuzes e canhões, e as dissensões internas de um reino dividido entre dois irmãos, Atahualpa e Huáscar. Tivessem os espanhóis chegado em 1450, a história seria outra.
Maravilhados com o esplendor de Cuzco, capital do império inca, a mais populosa cidade da Ameríndia, os conquistadores entrevistaram os sobreviventes do holocausto indígena (que sacrificou em todo o Continente, apenas no primeiro século após o desembarque de Colombo, cerca de 25 milhões de nativos). Nem os velhos com mais de 90 anos fizeram qualquer menção a Machu Picchu.
Supõe-se que apenas um seleto grupo da nobreza inca tivesse conhecimento da existência da cidade sagrada, toda em granito, madeira e fibras vegetais, erguida a 2.350 metros de altitude, no ápice de um conjunto de íngremes montanhas de extraordinária exuberância, a mais inacessível região dos Andes. Possivelmente edificada em meados do século XV para servir de refúgio à nobreza inca, ameaçada por tribos amazônicas, Machu Picchu abrigava nobres, cientistas (astrônomos, botânicos, médicos etc.), sacerdotes e virgens consagradas ao Sol. Ali viveu, com certeza, Tupac Amaru, o último imperador inca, assassinado pelos espanhóis em 1572.
Em todo o reino, que se estendia do Equador ao Chile, as mais belas meninas de 8 e 9 anos eram enclausuradas em caráter perpétuo, dedicadas a confeccionar vestuários e utensílios domésticos. Algumas, após os 16 anos desposavam nobres ou eram somadas às concubinas do imperador. Outras, sacrificadas ao deus Sol em cerimônias religiosas. Um terceiro grupo permanecia a vida toda segregado do convívio social. É possível que Machu Picchu tenha sido, predominantemente, um santuário de virgens;
não tendo elas gerado descendentes, sonegou aos séculos vindouros a memória de sua existência.
Impressiona na cidade-santuário a perfeita harmonia entre a obra humana e a natureza. Os incas consideravam os acidentes geográficos entidades vivas e tinham agudo senso de equilíbrio ecológico. Possuíam avançados conhecimentos astronômicos, comprovados pela localização e arquitetura dos templos de Machu Picchu, cujas janelas marcam com precisão as mudanças de estações. A agricultura se fazia em terraços simétricos à encosta das montanhas e, por ali, ainda hoje são encontradas lhamas, animais usados para o transporte de cargas e que fornecem fios e couro.
Entre os documentos que nos atestam a história do império inca
destaca-se os “Comentários reais”, de Garcilaso de la Veja (1539-1616), filho de um capitão espanhol e de uma princesa inca. Nascido em Cuzco, deixou-nos uma curiosa condensação dos relatos ouvidos e colhidos sobre a saga inca. E Hiram Bingham escreveu “A cidade perdida dos incas”, onde
relata como a descobriu Machu Picchu.
O acesso à cidade só é possível a pé, pela trilha dos incas (quatro dias de caminhada de Cuzco até lá) ou por ferrovia, controlada pela Perurail, sob controle dos ingleses durante 40 anos. A viagem de trem, morosa, leva quatro horas, isso se os passageiros tiverem mais sorte do que eu e não encontrarem pela frente um piquete de peruanos que, em protesto contra a concessão aos ingleses, exigem o direito de também explorarem vias alternativas, como a abertura de rodovia através dos desfiladeiros andinos.
Se um dia existiu a utopia evocada por Thomas Morus, Campanella e Marx, de uma sociedade em que todos tinham seus direitos plenamente assegurados, sem dúvida foi em Machu Picchu. Ali se trabalhava para o proveito comum, sem que houvesse salário e pobreza. E quando os incas miravam o esplendor daquelas majestosas montanhas, com suas íngremes encostas e profundos desfiladeiros, enxergavam mais do que beleza
natural. Viam ali a Pacha Mama, a Mãe Terra, de cujo seio extraíam vida e a quem prestavam culto.
- Frei Betto é escritor, autor de “Sinfonia Universal – a cosmovisão de
Teilhard de Chardin” (Ática), entre outros livros.
https://www.alainet.org/pt/active/14621
Del mismo autor
- Homenaje a Paulo Freire en el centenario de su nacimiento 14/09/2021
- Homenagem a Paulo Freire em seu centenário de nascimento 08/09/2021
- FSM: de espaço aberto a espaço de acção 04/08/2020
- WSF: from an open space to a space for action 04/08/2020
- FSM : d'un espace ouvert à un espace d'action 04/08/2020
- FSM: de espacio abierto a espacio de acción 04/08/2020
- Ética em tempos de pandemia 27/07/2020
- Carta a amigos y amigas del exterior 20/07/2020
- Carta aos amigos e amigas do exterior 20/07/2020
- Direito à alimentação saudável 09/07/2020
