Esplanada dos ministérios
23/01/2003
- Opinión
Da Praça dos Três Poderes, onde trabalho, contemplo a Esplanada dos
Ministérios. Meu olhar volta ao passado e retona ao presente, agora como se
a realidade fosse sonho. Ali está a ministra Marina Silva, seringueira,
analfabeta até os 14 anos, militante das CEBs (Comunidades Eclesiais de
Base) do Acre que, a convite do bispo Moacyr Grecchi, assessorei em meados
dos anos 70.
Ao lado, Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social,
líder comunitária do morro Chapéu Mangueira, atrás do nosso convento
dominicano do Leme, no Rio. Conheci-a casada com Bola, participando do
Movimento Fé e Política. José Fritsch, ministro da Pesca, integrante das
CEBs de Chapecó, é discípulo de dom José Gomes.
No monolito preto do Banco Central, reencontro Henrique Meirelles,
militante da JEC (Juventude Estudantil Católica) de Anápolis, movimento do
qual fui dirigente nacional nos anos 60. Estivemos juntos, naquela época,
num encontro no colégio São José, na Tijuca, Rio. No ministério de Minas e
Energia está Dilma Roussef, minha vizinha de rua na infância, companheira
de cárcere no Presídio Tiradentes, em S. Paulo, nos anos 70. José Graziano
da Silva, Ministro Extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome,
também foi meu companheiro de JEC, responsável pela coordenação estadual em
São Paulo. Em 1964, participamos de encontro dos militantes no Colégio
Notre Dame, na capital paulista.
Olívio Dutra, ministro das Cidades, militante da Pastoral Operária,
dividiu com Lula o tapete da sala da casa de meus pais, em 1980, quando
retornamos de uma atividade sindical no Vale do Aço, em Minas.
Dentro do Palácio do Planalto, a viagem ao passado me traz de volta José
Dirceu, líder estudantil que se escondeu em nosso convento de S. Paulo, nos
anos 60. Tentei avisá-lo do cerco policial ao congresso da UNE, em Ibiúna,
mas ele preferiu correr o risco de ser preso com todos a safar-se sozinho.
Mais tarde, quando emergiu da clandestinidade, apresentei-o a Lula.
O gabinete pessoal do presidente da República é comandado por meu parceiro
de Pastoral Operária, Gilberto Carvalho, que foi dirigente nacional do
movimento. Místico, jamais perde a dimensão dos detalhes e sabe tratar cada
pessoa com afetuosa atenção. À frente da Secretaria de Imprensa está
Ricardo Kotscho, com quem fundei Grupos de Oração, ativos há 23 anos.
Ao lado de minha sala está o gabinete presidencial. Lula trabalha das sete
da manhã às onze da noite. Ele soube capitalizar os nossos sonhos de
juventude, dar-lhes consistência política e, graças ao seu carisma,
transformá-los em realidade: agora, na Esplanada do Ministério, somos uma
comunidade responsável pelo governo do Brasil.
Desperto do sonho e fico perplexo. Tenho um gabinete no Palácio do
Planalto? Como foi possível, se não subimos a Serra da Mantiqueira, não
demos um único tiro, não fizemos uma revolução? Fizemos, sim, uma
revolução, mas por outros métodos: o da organização popular, da conquista
progressiva de espaço na política, tendo como mentor Paulo Freire; como
arma, a ética; como princípio, a fidelidade aos pobres; repensando e,
agora, promovendo a refundação do Brasil pela via da participação cidadã e
do fortalecimento da democracia.
Foi árduo o caminho que nos trouxe a esta Esplanada. Quais sementes,
muitos companheiros tombaram. Outros desanimaram ou foram cooptados pela
sedutora desesperança do neoliberalismo. E, no entanto, estar no governo
não é o que supõe a vã imaginação. As salas são apertadas, o controle ético
de nossos passos é rígido, nada de mordomias. Nos restaurantes internos a
comida é a quilo. E trabalha-se, muito, em média 12h por dia.
São poucos dias dentro da máquina do governo. Mas uma só coisa me causa
enfado: os pedidos de emprego, como se o Estado devesse manter a sua
tradição clientelista de cabidão dos correligionários e amigos. Felizmente
o novo governo se pauta por respeitar os funcionários de carreira,
preservar os de notória competência, nomear para funções estratégicas e de
confiança profissionais de relevante capacidade em suas respectivas áreas.
Os olhos do Brasil estão na Esplanada dos Ministérios. Lá de dentro, os
nossos estão no povo brasileiro, sobretudo nos mais sofridos. Das amplas
janelas do Planalto, não são as linhas arrojadas das obras de Niemeyer que
contemplamos, mas sim a face daqueles que jamais tiveram um governo a seu
serviço, empenhado no resgate da dignidade e da soberania nacionais.
Queira Deus que possamos corresponder a tanta expectativa. Mas uma coisa é
certa: não teremos êxito se a população não se assumir como nossa parceira
nesse desafio histórico.
* Frei Betto, escritor, é autor, entre outros livros, de "Hotel Brasil"
(Ática), e assessor especial do presidente da República.
https://www.alainet.org/pt/active/3030
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