Por fora, bela viola

07/08/2018
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Donald Trump comemorou o desempenho da economia americana. O crescimento do PIB bateu nos 4% no segundo trimestre de 2018 e a taxa de desemprego despencou para 3,8%. Trump festejou a proeza com seus idiossincráticos tuítes. O economista Robert Reich, ex-secretário do Trabalho, não hesitou em jogar água na borbulhante fervura do presidente americano.

 

Investigações mais cuidadosas do mercado de trabalho e de suas tendências revelam, nas palavras de Reich, uma “realidade perturbadora”. As perturbadoras realidades escondem-se sob o véu diáfano das fantasias do trumpismo. Mas seria injusto descarregar a munição na carcaça de Trump.

 

Desde Ronald Reagan, nos anos 80 do finado século XX, o establishment americano ocupa-se obstinadamente em esconder as mazelas da sociedade sob os disfarces do sonho americano. Democratas e republicanos entregaram-se à retórica “engana trouxa”. Dizia minha avó, dona Hermelinda, quando topava com as fake news do seu tempo: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”.

 

O bolor que invade o mercado de trabalho americano tem composição de odores nauseabundos: 80% dos americanos vivem da mão para a boca, amargam as aflições do dinheiro pingado mês a mês, sofrem as agruras das incertezas do incerto. Cresce aceleradamente o exército de precários em tempo parcial, trabalhadores que gostariam de estabilidade. Os graduados nas universidades ocupam funções e empregos desapegados de suas qualificações.

 

Nos idos de março de 2016, o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos informava: foram criados 215 mil empregos, um tanto acima das previsões que apostavam em 213 mil. Bom resultado.

 

Alguém curioso, outrora alcunhado xereta, poderia bisbilhotar a distribuição setorial dos empregos criados. Encontraria um quadro menos animador: Educação e Saúde, 51 mil; Varejo, 48 mil; Lazer, 40 mil. Aproximadamente dois terços de todos os empregos criados são ocupados por trabalhadores que recebem salário mínimo.

 

Nas ocupações de Lazer há registros de horistas que ganham merreca para desfilar fantasiados de Mickey, Minnie, Pateta, Pluto e outras criações do finado Walt Disney. São atores que encontraram seus personagens em Orlando.

 

Ao anunciar os resultados, o secretário do Trabalho, Thomas Perez, lamentou: em suas andanças pelo país encontrou “pessoas trabalhando duro, mas não remuneradas justamente. Elas mal conseguem se manter e, muito menos, avançar. Em março, os rendimentos horários cresceram 7 cents. Mas a tendência ao achatamento dos salários antecede por muitas décadas a Grande Recessão”.

 

O baixo dinamismo do mercado de trabalho está no centro da “crescente polarização da renda no Estados Unidos”, como aponta o FMI em estudo recente. A participação das pessoas de renda média, que nos anos 1970 representavam aproximadamente 58% da população dos EUA, caiu para 47% em 2014.

 

A tendência de polarização é consistente para diferentes cortes de definição de renda média. A exclusão do 1% mais rico ou análises considerando idade, raça ou educação produzem o mesmo resultado. Os dados de participação dos diferentes níveis de renda na economia corroboram a polarização observada na população.

 

A participação da renda média na economia era de 47% em 1970 e caiu para aproximadamente 35% em 2014. A contraparte desse decréscimo pode ser observada no aumento da participação da renda alta. O estudo da OCDE “Income Inequality: The gap between rich and poor” aponta que, entre 1975 e 2012, perto de 47% do crescimento total da renda antes de impostos nos EUA foi para o 1% no topo.

 

As pesquisas da Oxford Committee for Famine Relief (Oxfam) revelam que os salários dos diretores executivos das empresas americanas cresceram 997% desde o fim dos anos 1970, enquanto o salário do trabalhador médio aumentou apenas 11%.

 

Reich demonstra que o típico trabalhador americano tem rendimento anual em torno de 44,5 mil dólares. Ajustado pela inflação, esse valor corresponde ao rendimento médio de 40 anos atrás. Essas quatro décadas de estagnação nos recebimentos da tigrada que sobrevive na platibanda inferior da sociedade coincide com a aceleração dos ganhos no topo da distribuição de renda e de riqueza.

 

Na cumeeira estão os executivos das grandes empresas oligopolistas, sabichões dos mercados financeiros, consultores econômicos que emprestam seu prestígio acadêmico para justificar as iniquidades com emboloradas teorias darwinistas da sobrevivência do mais apto. 

 

- Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

 

07/08/2018

https://www.cartacapital.com.br/revista/1015/por-fora-bela-viola

 

https://www.alainet.org/pt/articulo/194568
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