Uma crítica ao laissez faire da formação de professores para cursos de Jornalismo no Brasil
19/05/2004
- Opinión
A educação superior brasileira enfrentou desafios novos com a
crescente demanda pela formação acadêmica, sobretudo depois do
final da década de 70, e que resultou na progressiva
massificação do ensino superior e na conseqüente proliferação
dos cursos superiores em praticamente todas as áreas
profissionais, seguindo uma tendência latino-americana de cursos
superiores em "portas de garagem". Esta massificação se
apresentou à sociedade sob a égide de uma reserva para o mercado
de trabalho em sociedades ávidas por emprego e renda.
O eminente sociólogo e ensaista alemão Robert Kurtz (2004)
aborda a questão do ensino superior apontando a crise no
Ocidente decorrente da lógica econômica e que, segundo ele, tem
graves conseqüências sociais porque acaba minando a milenar
cultura humanista de nossa história. Priorizou-se a técnica em
detrimento dos valores humanos, no discurso do ensaísta alemão,
e na onda desta tendência, massificou-se também a mão-de-obra
intelectual nas universidades, maquiada por títulos acadêmicos
de gente sem preparo suficiente.
Um dos desafios mais expressivos diante das transformações
sentidas nas faculdades, centros universitários e novas
universidades foi mesmo, principalmente, a busca por
profissionais habilitados ao ensino universitário nas áreas que
então se faziam necessárias diante da nova demanda social e
econômica. A maioria dos cursos foi de fato constituída a partir
de professores que vinham de um mercado de trabalho
convencional, nada adscrito às práticas pedagógicas que são
inerentes à atividade de professor e que imprimiam uma formação
equivocada no ensino superior, nos moldes de cursinhos
profissionalizantes. Quem era colocado para ensinar nas
faculdades gozava de um reconhecimento público pela função e
atividades exercidas ao longo de sua carreira profissional e
parecia, acertadamente, ser uma escolha aceitável diante das
novas necessidades surgidas.
Ocorre que, se por um lado, alguns excelentes e inesquecíveis
mestres se fizeram conhecer através desta brecha histórica na
formação dos cursos que se multiplicavam por todo o país, esta
não foi exatamente uma tendência. A maioria dos professores
dispunha de conhecimentos técnicos, mas nenhuma habilidade
pedagógica, o que é compreensível- e pouca ou nenhuma vocação
teórica, o que contribuiu para mitificar o aparente abismo entre
teoria e prática que ainda hoje assombra os cursos superiores.
Os primeiros cursos universitários e o grande contingente de
faculdades que se multiplicaram por todo o país e depois delas
também os centros universitários, amarguraram a desilusão
bastante comum de professores sem habilidade no ensino e que
logo nas primeiras experiências optavam por voltar para as
funções ou atividades de onde tinham vindo. Alguns, muito
poucos, na verdade, se estabeleceram nos quadros acadêmicos em
definitivo e fizeram carreira como professores. Outros,
sabiamente, conseguiram conciliar durante boa parte de suas
vidas como professores também alguma prática profissional no
mercado convencional em suas áreas, o que os tornou duplamente
valorizados.
No Jornalismo, de modo muito significativo, esta realidade foi
sentida, sempre mais intensamente, nos anos 80 e 90 em todo o
Brasil. Hoje, no começo do século XXI, o problema vem aos poucos
sendo dirimido com a formação de professores mestres e doutores
em todo o País, objetivando uma formação pedagógica ideal aos
professores dos cursos de graduação, mas a situação atual ainda
parece longe demais do ideal. Em que pesem todas as iniciativas
governamentais, através do Ministério da Educação, no sentido de
coordenar políticas que incentivem a formação de professores de
faculdade por excelência, ainda se faz sentir uma política de
laissez faire, como ficou conhecida a tradição capitalista,
evidenciando-se nas escolas superiores um relativo inchaço dos
quadros docentes de professores colaboradores horistas, cuja
vocação para o magistério não é sua verdadeira prioridade
profissional e que embora respondam aos desafios econômicos de
um novo tempo, promovem uma herança que se fará sentir muito em
breve na ponta do ensino superior: a qualidade questionável com
que acadêmicos sairão, em número cada vez maior, dos bancos das
faculdades.
Esse espírito do laissez faire coloca desde uma perspectiva
histórica, professores tecnicizados para os quadros de
magistério superior nas faculdades em geral nos anos 80 e motiva
a discussão sobre a importância do ensino superior em muitas
áreas, onde aparentemente, uma certa habilidade técnica seria
suficiente para destituir a formação acadêmica. Sobretudo no
Brasil e por muitos anos, o debate que deveria ser sobre a
qualidade do ensino superior que se fazia nas faculdades foi
invertido para discussões estéreis sobre a importância do curso
acadêmico e a validade do diploma. Questionou-se o diploma de
jornalismo, a formação acadêmica em Pedagogia, o espaço
universitário para áreas novas que surgiam.
O considerável contingente de professores deslocados de um eixo
central necessário a toda uma função que é pedagógica, distantes
os mesmos professores em alto grau da desejável compreensão
mínima sobre a competência necessária ao ensino superior,
contribuiu para um quadro lamentável de desprestígio da tarefa
do professor e uma não compreensão senso comum da importância da
reflexão acadêmica e da tarefa de educador. A Universidade
deixou de ser o espaço legítimo de questionamento- função para a
qual foi criada- e passou a ser um centro de habilitação para um
mercado de trabalho, concentrando cursos técnicos e abrindo
concorrência com escolas de formação de nível médio. Mesmo na
Europa, onde a formação técnica superior foi compreendida como
necessária para atender a uma demanda de mercado, esta nova
formação profissional jamais se viu confundida com a formação
acadêmica tradicional como cocorreu no Brasil e em boa parte da
América Latina. Na França existe o medo de que as faculdades se
tornem colégios técnicos, reduzidas em sua finalidade e função.
Na Alemanha, por exemplo, um curso técnico de nível superior é
grosseiramente distinto de um curso superior de faculdade.
Em nome da massificação do ensino superior, no Brasil,
confundiram-se as práticas e abriu-se terreno para a construção
de alguns mitos, entre eles, o de que o diploma, por exemplo,
fosse o fim útil da formação universitária. Neste artigo, desejo
tão somente acentuar o quanto se fez sentir no ensino superior
esta falta de formação específica de professores, sobretudo nos
cursos de Jornalismo. Mesmo entre profissionais recém-vindos de
centros de excelência de formação, com títulos de mestres e
doutores, a falta de uma formação pedagógica continuava a se
fazer sentir. Em boa parte das iniciativas de planejamento dos
cursos novos, sobretudo em instituições nas quais esta
preocupação não foi projeto de gestão diretiva, o corpo docente
das faculdades se viu inchado ou de profissionais do mercado sem
habilidade para a sala de aula, ou de mestres sem a necessária
reflexão pedagógica à nova atividade que teriam pela frente.
Os cursos de mestrado e doutorado no Brasil, salvo exceções, não
concentram disciplinas suficientes para a formação desejada de
professores do ensino superior. Em alguns casos até, os mestres-
exemplos nos quais estes novos futuros mestres poderiam se
inspirar são exemplos tão limitados quanto eles mesmos, frutos
desta tradição e história compartilhadas.
Obviamente, alguns avanços conseguiram se fazer depois da oferta
admitida pela demanda de cursos específicos de metodologia do
ensino superior, mas que, infelizmente, contaminaram-se do mesmo
problema e reuniram, em muitos casos, professores eles próprios
sem a devida habilitação, meros reprodutores de manuais de
pedagogia. Gente com pregação sem doutrina legítima. Em outras
palavras, foi o mesmo que querer colocar um leigo a ensinar
leigos a rezar uma missa.
Neste cenário de ranços da educação superior brasileira, movido
por um ideal inegável de minha experiência como professor, desde
as práticas no ensino fundamental e as experiências em sala de
aula no ensino médio e sobretudo ciente de que esta caminhada
torna diferente a atuação do educador em nível superior, é que
proponho a reflexão neste artigo a respeito da formação
pedagógica continuada e a necessidade de experiência anterior em
magistério para que professores cheguem ao ensino superior. Como
esta utopia pode se fazer eternamente utopia tendo em vista a
sua não- exeqüibilidade técnica, proponho neste artigo, algumas
saídas para o problema que é, reconhecidamente, o de colocar em
sala de aula nas faculdades, professores com experiência de
ensino mínima, quando hoje ainda esta colocação é feita não raro
sem experiência alguma em boa parte do país.
Acuso nesta crítica a contrariedade sentida no espírito
iluminista do "laissez faire, et laissez passer, le monde va de
lui mème" e que justificou o capitalismo tardio, mas não tem
mais lugar na epistemologia crítica pós-moderna, como bem
acentua Kincheloe (1997, p.55). O autor tem a propriedade de
apontar na tendência do pensamento de seus contemporâneos como
McLaren, Aronowitz e Girou, para quem o capital cultural vai
falar mais alto que as barreiras legais ou econômicas em nosso
tempo.
De fato, se regras de mercado forçam novas configurações ao
ensino superior. Elas não precisarão necessariamente vir
acompanhadas deste descaso evidente com o corpo docente nas
faculdades, onde ainda parece imperar a lei do "deixa como está
que o mundo gira por si mesmo", que resume em tradução livre o
sentimento francês do começo do século XVII e até o final do
século XIX inscrito na máxima de Montesquieu.
Christa Berger (1998, p.130), em artigo no qual denuncia a
necessidade de um ensino de Jornalismo menos tecnicizado,
escreve: " Se a demanda externa é por mão-de-obra qualificada e
se essa demanda desemboca na universidade, esta deve fazer
transcender pela própria natureza as expectativas imediatistas
do mercado". Com efeito, não são apenas disciplinas técnicas que
justificam a criação de cursos de comunicação no Brasil.
Herdeiros naturais de uma investigação em Sociologia,
Antropologia e Ciências da Linguagem, os estudos em Comunicação
e a formação específica em Jornalismo não podem prescindir em
sua razão e existência daquilo que os motivou e se verem
transformados em cursos apostilados de domínio experimental. Os
docentes destes cursos, em nível universitário, não podem,
portanto, prescindir de uma formação empírica no magistério
tanto quanto se faz necessário ao mercado convencional em
Jornalismo, tampouco relegar a formação humanista inerente às
práticas que vislumbram no mercado.
Creio que uma das alternativas mais dignas de nota para reverter
progressivamente este quadro em nosso tempo tem sido a formação
de monitores desde a graduação, incentivando alunos de
reconhecido desempenho acadêmico a encamparem o desafio de se
aceitarem futuros professores quando ainda alunos e de
investirem nesta formação, por meio de estágios e projetos de
monitoria. O monitor, entendemos, é um professor em formação,
coerente com uma política de gestão voltada para um ensino
verdadeiramente de excelência.
Será preciso se aceitar professor, se reconhecer professor,
antes mesmo de sê-lo. Somente a trajetória progressiva das
experiências em sala de aula que se fizerem sentir sem os riscos
do magistério precoce e irresponsável, poderá contribuir para
quadros docentes mais responsáveis no futuro. Em artigo
publicado na imprensa, Valmor Bolan, doutor em Sociologia,
denuncia: "Ou o humanismo recupera sua força como valor
educacional, ou o tecnicismo pode intensificar o barbarismo
cultural, com efeito globalmente anticivilizador. O mesmo
barbarismo que é a causa de um ensino superior ainda muito longe
do desejável.
* Geder Luis Parzianello - Mestre em Comunicação (UFRGS) e
Doutorando em Comunicação (PUCRS)
BERGER, Christa. Teoria da Comunicação: apontamentos de sala de
aula. In: Revista Tendências da Comunicação. L&PM, Porto Alegre:
1998
BOLAN, Valmor. A Universidade Desejada. In: O Paraná. Jornal O
Paraná. Edição 03. Mai.2004.
KURZ, Robert. In: FOLHA. Jornal Folha de São Paulo. Caderno
Mais. Edição. 11. Abr.2004
KINCHELOE, Joe. A formação do professor como compromisso
político. Mapeando o pós-moderno. São Paulo: Artes médicas,
1997.
https://www.alainet.org/pt/articulo/109952
