Entrevista a Dom Pedro Casaldáliga

Candidatura de Lula é um espaço popular

21/10/2006
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Buscando ampliar o debate em relação ao segundo turno das eleições para a presidência da República, o Correio da Cidadania publica abaixo entrevista com Dom Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT) e um dos mais importantes militantes brasileiros pelos direitos humanos. Dom Pedro avalia a importância do voto no candidato petista, a diferença entre os projetos de Lula e de Geraldo Alckmin e debate os rumos da esquerda no país após o pleito.

Correio da Cidadania: Como o senhor avalia o atual momento político do país? O senhor concorda com a visão de forças à esquerda que acreditam que o projeto de ambos os candidatos é o mesmo, com pequenas diferenças de graduação?

D. Pedro Casaldáliga: O projeto não é o mesmo. A candidatura de Lula constitui um espaço popular, ambíguo, é verdade, com muitas falhas no primeiro mandato, mas é um espaço popular. A candidatura de Alckmin é um espaço abertamente neoliberal, a serviço das elites. O modo como estão atuando os grandes meios de comunicação revela muito bem onde estão os interesses do tucano, e a serviço de quem ele está. A política precisa ser realista. O que está em jogo não é o "tudo ou nada", mas sim o tudo possível.

CC: E o senhor declarará o voto em Lula?

DPC: No primeiro turno, foi-me pedido um respaldo manifesto a favor da candidatura de Heloísa Helena. Foi-me pedido, também, depois, o respaldo para um manifesto favorável à candidatura de Lula. Não assinei nenhum dos dois manifestos, mesmo tendo carinho e respeito pelos dois candidatos. Isso porque, naquele momento do primeiro turno, eram várias as alternativas. Agora é uma só: ou o neoliberalismo puro e aquela continuidade que conhecemos ou um espaço popular, ambíguo e confuso, mas um espaço ainda aberto para reivindicações do movimento popular. A opção entre Alckmin e Lula é uma opção fundamental entre uma política e a outra.

CC: O que pensa sobre o apoio crítico e condicionado
?

DPC: Eu também estou fazendo tais críticas, a partir do nosso ambiente: reclamamos a reforma agrícola, a reforma agrária, a demarcação e a defesa das terras indígenas, o aumento do emprego, e insistimos mais ainda, apesar de já haver alguns passos positivos em relação a isso, na integração definitiva da América Latina.

CC: O senhor acredita que esse tipo de apoio crítico terá alguma efetividade?

DPC: Veja, é andando que se aprende a andar, e andando se abrem caminhos. Agora se trata de continuar exigindo, melhorando, reivindicando, e, como indicam algumas vozes luminosas – inclusive no Correio da Cidadania -, temos que estimular ao máximo a participação consciente e organizada do movimento popular.

CC: Como o senhor avalia a idéia difundida entre alguns setores da esquerda de que a permanência de Lula no poder - uma figura de prestígio histórico na esquerda, mas que praticou um governo em rota de colisão com este prestígio – desmobilizaria e anestesiaria ainda mais a população e os movimentos sociais?

DPC: Temos que aproveitar o dia de hoje. O dia de ontem já passou, e o dia de amanhã não chegou ainda. Passar para o segundo turno também significa ser um pouco mais humilde e um pouco menos triunfalista, e se deter com maior vontade de mudança nos pontos considerados falhos. O PT precisa fazer um sério exame de consciência. Respeito muito certas vozes puras e heróicas do PT, mas que têm abandonado o sonho e a esperança.

CC: Qual a sua opinião sobre as políticas sociais do governo petista, especialmente no que concerne às críticas de que estiveram centradas no modelo assistencialista ditado pelo Banco Mundial?

DPC: É certo que é melhor ensinar a pescar do que distribuir peixes, mas não é possível se fazer tudo. É necessário fazer uma certa política de assistência imediatista, porque a fome não espera. No Brasil, ainda há milhões de famintos. Mas não se pode conformar a política ao assistencialismo e atender a população somente num "estilo bombeiro", apagando incêndios imediatos. É preciso uma política social mais estruturada, que parta para as raízes do problema e das raízes para a solução: terra no campo, terra na cidade, educação, saúde, queda nos juros, frear a cobiça do agronegócio, pensar mais no mercado interno e menos na exportação excessivamente capitalista. E, enquanto isso, continuar ajudando aqueles que possuem uma necessidade urgente.

CC: Esses pontos implicam, automaticamente, em uma mudança na condução da política econômica. O senhor acredita que Lula irá tomar outros rumos em seu segundo mandato em relação a isso?

DPC: Nós iremos cobrar e insistir nesse ponto. Os sindicatos, os partidos de esquerda, o movimento popular e as comunidades eclesiais devem manter a bandeira, a lucidez e a reivindicação. Cada vez mais devemos entender que participar não é só votar; é preciso cobrar o candidato que elegemos.

CC: Quais são as perspectivas para a esquerda no Brasil? O que deve ser feito para seu fortalecimento, assim como o dos movimentos sociais?

DPC: É preciso fortalecer cada vez mais a participação popular, a partir das bases. Há que se reivindicar cada vez mais os bens maiores. A esquerda precisa deixar de ser imediatista e triunfalista, e precisa manter a utopia e a esperança, honrando a memória de nossos heróis e mártires. Necessitamos de uma esquerda bem latino-americana e caribenha, que se integre cada vez mais na caminhada da Nossa América, e que todos confiemos no Deus da vida, no Deus da paz.
Há esperança sempre.

Fonte: Correio da Cidadania Nº 522
http://www.correiocidadania.com.br

https://www.alainet.org/pt/active/14070

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