Os ventos de junho sopram na primavera

09/10/2013
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De um lado, os professores municipais do Rio enfrentam briosamente a PM e a desfaçatez de Cabral, Paes & Cia. De outro, jogadores de renome decidem criar o Bom Senso F. C., dispondo-se a reformular o calendário da CBF para 2014 (o tal ano da Copa!) e a arguir as decisões arbitrárias dos cartolas. Sim, não resta dúvida: os ventos de junho ainda sopram na primavera tropical – e nada nos faz crer que os próximos meses sejam de calmaria ao sul do Equador.
 
Aqui no Rio, os roteiristas do PMDB esmeram-se na produção de novas cenas de descalabro e prepotência. Não bastassem as notícias aziagas que vêm das UPP (vide o assassinato do pedreiro Amarildo na Rocinha), a PM agora investe covardemente contra os docentes em greve. No mês passado, os policiais não só os agrediram a cassetete e gás mostarda na Câmara dos Vereadores, como também postaram mensagens debochadas nas redes sociais (“Foi mal, ‘fessor’!”), vangloriando-se da “borracha” ‘presenteada’ aos mestres, sem falar no fl agrante forjado por um P-2 ao disparar um morteiro na rua.
 
Nada disso, porém, intimidou a categoria, que, após uma assembleia realizada com milhares de profissionais, manteve sua greve em prol de um plano de carreira justo e de melhores condições de ensino na ex-“capital cultural” de Bruzundanga. São os ventos de junho, leitor! Ainda mais desgastados, Cabral e Paes já não sabem o que fazer com a insatisfação da turba. Até o capataz Beltrame parece ter perdido o rumo, após a prisão dos 10 policiais envolvidos no sequestro e morte de Amarildo, declarando que o episódio não manchará a imagem das UPP na cidade...
 
Se falta lucidez na outrora Cidade Maravilhosa, nos campos tupiniquins o Bom Senso trata de erguer sua voz, a fim de combater o descaso dos cartolas pelo futebol. Há muito a se fazer pelo esporte no país, cujas mazelas incluem não só a desfaçatez dos dirigentes, mas o próprio abismo criado entre os clubes, sobretudo pela ação deletéria da TV (leia-se Globo) fora das quatro linhas – embora os contratos milionários firmados com Flamengo e Corinthians não signifiquem a redução de suas dívidas colossais.
 
“Pobre futebol rico!”, escreveu com rara lucidez o comentarista PVC em sua coluna. Enquanto o clã Marinho gasta R$ 1 bilhão com o “Brasileirão”, as ‘arenas’ recém-inauguradas ficam a cada mês mais vazias, com uma média de público 27% inferior à de 2009, quando a TV destinava R$ 150 milhões por ano ao campeonato. O torneio nacional, aliás, é a cereja de um bolo podre: no país, 20% dos atletas profissionais atuam apenas quatro meses ao ano e 435 times só jogarão durante um semestre em 2013 (somente os 40 clubes das séries A e B atuam o ano todo). Em Roraima, por exemplo, o torneio estadual durou 53 dias; em Rondônia, só há 31 atletas inscritos na CBF. Precisa dizer mais?
 
De qualquer forma, vale a pena exaltar os ventos de junho. A luta dos professores, a prisão dos 10 PMs, a criação do Bom Senso F. C. por Paulo André, Alex & Cia. devem muito àquele vendaval. Em campo, eles continuarão a soprar até 2014, não tenham a menor dúvida, amigos – mas será que a Burguesia Esporte Clube desconfia disso nos palácios, escritórios e gabinetes?
 
- Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.
 
 
https://www.alainet.org/es/node/79979
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