Mais além da ‘revolta dos bisturis’

25/09/2013
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Recuando de sua decisão inicial, o Conselho Federal de Medicina orientou as seções regionais a emitir registros provisórios para os estrangeiros convocados pelo programa Mais Médicos. Sem dúvida, uma grave derrota político-ideológica de uma categoria que, em passado até recente, destacou-se por defender os interesses populares e alinhar-se com os setores mais progressistas da colônia. 
 
Para não ir tão longe, basta lembrar o papel dos acadêmicos de medicina no movimento estudantil e sua atuação decisiva na reconstrução das entidades destruídas pela ditadura, ao final dos anos de 1970, como ocorreu na UFRJ, onde dois militantes do curso ocuparam a presidência do DCE Mário Prata. Foram por demais fascistoides algumas das cenas protagonizadas pelos doutores e seus pares. Uma delas evocou até a recepção da elite branca ianque à primeira estudante negra que rompeu o apartheid escolar nos EUA. 
 
Isso sem falar nas vaias e declarações atrozes, como a da jornalista potiguar que comparou os médicos cubanos a “empregadas domésticas”. Creio que nem Walcyr Carrasco, autor de “Amor à Vida”, lograria um roteiro tão canhestro para essa “Revolta dos Bisturis” – e lembre-se que a novela da Globo (cujo principal cenário é um hospital onde tudo acontece...), repleta de fraudes, eletrochoques e sexo no elevador, já despertou a fúria de advogados, médicos, enfermeiros & Cia. 
 
Mais além de tão insana batalha, em que a questão da saúde só mereceu argumentos toscos e retrógrados, devemos aproveitar o episódio para indagar por que a Medicina atingiu tamanho grau de mercantilização no país. É compreensível o incômodo com os cubanos, vindos de um país que priorizou a saúde pública, investindo o máximo na área, e optou por prevenir, criando o eficiente projeto do “médico de família”, que há décadas vários governos buscam implantar aqui. 
 
É claro que a ilha de Martí fatura dólares com o “turismo médico” (milhares voam até lá para tratamento de vitiligo ou de doenças oculares, por exemplo), mas o dinheiro ajuda a manter o sistema público gratuito e iniciativas como a Escola Latino-Americana de Medicina, que forma alunos da África, Américas e Caribe. 
 
As perguntas a serem feitas são outras. Por que somos um paraíso para as multinacionais farmacêuticas, que atulham os ambulatórios do SUS com amostras grátis de seus produtos milagrosos, habituando nossos doutores a receitar suas drogas sem pestanejar? Por que somos o país com maior número de cesarianas, a pátria, enfim, dos anestesistas, gerando lucros incalculáveis para os “planos de saúde” e gastos inconcebíveis para o Estado? Por que a acupuntura, de tradição milenar, ou a medicação por homeopatia, sem falar na farmacopeia indígena, são tão estigmatizadas pela medicina oficial? E as nossas subcondições sanitárias – como mudar essa catástrofe? 
 
Estudos sugerem que as infecções parasitárias prejudicam as faculdades intelectuais das crianças – por isso, a média do QI aumenta rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn) e tende a ser mais alto nas zonas onde o inverno é mais frio (há menos parasitoses). Já não é tempo de erradicar os 38% de residências sem saneamento básico na terrinha? Já não é hora de reverter um quadro de 20% dos partos do SUS realizados em meninas e adolescentes de 10 a 19 anos? Exmª Srª Dilma, nobres congressistas, alcaides, governadores e ilustres conselheiros: por que não tratar desses temas após a revolta dos bisturis? 
 
- Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível
 
 
https://www.alainet.org/es/node/79609
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