Descolados & bestializados
02/07/2013
- Opinión
“Desde o início, os principais alvos da ira popular foram
os serviços públicos e os representantes do governo, de
modo especial os componentes das forças de repressão.
A multidão agredia cocheiros, carroceiros, acendedores
de lampiões; destruía bondes, carroças, linhas telefônicas
e gasômetros. Principalmente, ela vaiava o Ministro da
Justiça, insultava o chefe de polícia, atacava quartéis
e postos de polícia. A reação à vacina servira para
desencadear um protesto muito mais vasto e profundo.”
(José Murilo de Carvalho, Os bestializados)
Com as multidões nas ruas durante a Copa das Manifestações, apregoa-se em alta voz que “o gigante acordou”. Mera ilusão metafísica: há muito ele anda desperto – e, se adormecera, via-se que o sono era agitado, febril, com espasmos de violência e mau humor. Quem rastrear o passado recente verá que desde 2004 cresce a bandeira do passe livre e a luta contra a farra da Copa e as remoções.
O velho Karl Marx já dizia que, se a aparência correspondesse à essência, não precisaríamos de ciência. De fato, a ideia de que nosso povo é alienado e passivo não faz jus à história de Bruzundanga, nem tampouco aos fatos que ora presenciamos. É verdade que as revoltas coloniais não lograram mudar o caráter patriarcal e excludente do país agroexportador, que dizimou os indígenas e escravizou milhões de negros. Mas as lições da Confederação dos Tamoios e do quilombo de Palmares, revividas na Guerra de Canudos e no Contestado, seguem vivas no imaginário popular.
As primeiras revoltas foram nas matas e nas fazendas. Éramos uma nação agrária, forjada pelos “coronéis” da casa-grande no Nordeste; já no século 19, surgem os “barões” do café na terra-roxa, prenunciando a eclosão da indústria e a lenta transfi guração espacial do país. Assim se impôs a fórmula da modernização sem ruptura, em que as elites urbanas e rurais ditam o ritmo do “progresso”, excluindo sistematicamente o povo de qualquer interferência na vida pública nacional.
A nova ordem urbana, porém, não aplacou o rancor da senzala. Capital da trôpega I República, o Rio da Belle Époque protagonizou rebeliões memoráveis dos “bestializados”, que deixaram perplexos os governantes e a imprensa da época. Imagine-se a TV Globo ou a Veja em meio àquele tiroteio – isso sem falar em Haddad, Paes, Alckmin, Cabral, Dilma & Cia. Entre a Revolta da Vacina (1904) e a da Chibata (1910), uma onda de protestos violentos sacudiu a Cidade Maravilhosa, para pasmo de intelectuais como Raul Pompéia, que lastimava a “apatia cívica do povo”, até então mero espectador do regime proclamado em 1889. As perguntas que eles se faziam são as mesmas de hoje... Quem são os revoltosos? Por que se rebelaram com tanta fúria? O que fazer para restabelecer a “ordem” republicana?
Um século mais tarde, há muito a se aprender com os descolados. Para azar de Datena e Jabor, já não se pode falar em bestializados, muito menos em “vândalos” ou “baderneiros”. Em plena crise da representação burguesa, com um Congresso falido e o Executivo refém das maracutaias do capital virtual, são eles que saem às ruas, atraindo, com sua indignação, jovens da “nova classe média” e outros setores do espectro social. É a geração Facebook na vida real, com perfil urbanoide (alguém falou em reforma agrária?) e articulação horizontal, mas cheia de energia para revirar nossa torpe democracia.
A dimensão surpreende, mas ela é apenas uma resposta à absurda repressão policial, à extrema arrogância da mídia e à desfaçatez do poder. Há quem fareje a direita no ar, mas estão longe as marchas da TFP e nem a velha TV da ditadura regravou os “Anos Rebeldes” para tutelar seus caras-pintadas. É claro que, sem uma pauta definida e até com bandeiras da social-democracia, muitos sonhem cooptá-la. Mas outra Copa vem aí e os descolados prometem não parar: se um povo em luta aprende em meses o que não logrou em 20 anos, quem quiser “surfar” nessa onda arrisca-se a ser tragado pela pororoca.
- Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidad de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível e Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil.
https://www.alainet.org/es/node/77361
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