• Español
  • English
  • Français
  • Deutsch
  • Português

Cobertura da Venezuela nos leva de volta à era das mentiras sobre a América Latina

Opinión
01/03/2019
manifestaciones_venezuela.jpg
Foto: Alexcocopro
-A +A

Eu estava sentado no meu apartamento em Caracas, na Venezuela, lendo a versão online da revista Time (19/05/2016), na qual havia uma reportagem sobre como mesmo algo tão básico quanto uma aspirina não poderia ser encontrado em lugar algum na Venezuela: “Medicamentos básicos como a aspirina não podem ser encontrados em lugar algum”.

 

Eu caminhei de meu apartamento à farmácia mais próxima, a quatro quadras de distância, onde eu encontrei um monte de aspirina, assim como acetaminofeno (Tylenol genérico) e ibuprofeno (Advil genérico), em uma farmácia bem abastecida e com funcionários bem instruídos que fariam inveja a qualquer drogaria dos EUA.

 

Alguns dias depois da história da Time, a CNBC (22/06/2016) publicou que não havia acetaminofeno em lugar algum, que “coisas básicas como Tylenol não estão sequer disponíveis”. Isso deve ter pego a Pfizer Corporation de surpresa, já que era a sua subsidiária, Pfizer Venezuela SA, que produzia o acetaminofeno que eu comprei. (Nem o escritor da Time Ian Bremer nem o comentarista da CNBC Richard Washington estavam na Venezuela, e nenhuma evidência foi apresentada de que qualquer um deles já estivera lá).

 

Eu comprei o três produtos, xarope para tosse e mais outros medicamentos, porque duvidava de que qualquer pessoa nos Estados Unidos acreditaria em mim se eu não pudesse apresentar os medicamentos em suas embalagens.

 

Farmácia venezuelana à época em que a Time (19/05/2016) estava dizendo aos leitores, “Medicamentos básicos como a aspirina não podem ser encontrados em lugar algum” na Venezuela.

 

Inquebrantável soar de mentiras

 

De fato, eu pessoalmente não seria capaz de acreditar em ninguém que fizesse tais declarações sem que pudesse mostrar a prova delas, de tão intensa que tem sido a disseminação de mentiras. Quando a Orquestra da Juventude Venezuelana deu um concerto em Nova York no começo de 2016, antes de eu me mudar para Caracas, eu fui lá pensando, “nossa, eu espero que os membros da orquestra estejam todos bem vestidos e bem alimentados”. Sim, é claro que eles estavam todos bem vestidos e bem alimentados!

 

Quando eu mencionei isso em uma palestra na Universidade de Vermont, um estudante me disse que ele teve a mesma sensação quando estava acompanhando o campeonato Pan Americano de futebol. Ele se perguntou se os jogadores venezuelanos teriam condições de jogar, por estarem tão enfraquecidos pela falta de comida. Na verdade, ele disse, o time venezuelano jogou muito bem, e foi muito mais longe na competição do que o esperado, já que a Venezuela é historicamente um país do baseball, ao contrário dos vizinhos obcecados por futebol Brasil e Colômbia.

 

Por mais difícil que seja para os leitores da mídia estadunidense acreditarem, a Venezuela é um país onde as pessoas fazem esportes, vão ao trabalho, vão a aulas, vão à praia, vão a restaurantes e assistem a concertos. Eles publicam e leem jornais de todas os espectros políticos, de direita, de centro-direita, de centro, de centro-esquerda e de esquerda. Eles produzem e assistem programas de televisão, em canais de TV que também são de todos os espectros políticos.

 

A CNN foi recentemente ridicularizada (Redacted Tonight, 01/02/2019) quando fez uma reportagem da Venezuela, “na utopia socialista que agora deixa praticamente todo estômago vazio”, seguida imediatamente de um corte para um protesto da oposição direitista em que todo mundo parecia muito bem alimentado.

 

Mas isso é certamente porque a maior parte dos oposicionistas protestando são da classe média alta, um telespectador pode pensar. Os proletários nas manifestações devem estar sofrendo de fome severa.

 

Não se consultarmos as fotos do massivo protesto governista em 2 de Fevereiro, em que as pessoas aparentavam estar muito bem. Isso apesar da extrema pressão econômica da administração Trump, reminescente da estratégia “faça a economia gritar” usada pelo governo Nixon contra o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende no Chile, assim como contra muitos outros governos eleitos democraticamente.

 

Manifestações Rivais

 

Aquela manifestação mostrou apoio considerável ao governo do presidente Nicolás Maduro e rejeição generalizada à escolha de Donald Trump para presidente da Venezuela, Juan Guaidó. Guaidó, que se autoproclamou presidente do país e foi reconhecido minutos depois por Trump, ainda que uma enquete de opinião pública mostrasse que 81 por cento dos venezuelanos nunca havia ouvido falar dele, vem da facção de extrema direita da política venezuelana.

 

Últimas Notícias no Twitter (01/02/2019): “Capriles: Os Partidos Não Estavam Apoiando a Autoproclamação de Guaidó”

 

A manifestação pró-Maduro sugeriu, não surpreendentemente, que Guaidó falhou em ganhar apoio popular fora das classes ricas e de classe média alta. Mas Guaidó nem sequer ganhou apoio de muitos deles. No dia anterior às marchas rivais de 2 de fevereiro, Henrique Caprilles, o líder de uma ala menos extrema da direita, deu uma entrevista à AFP que apareceu em Últimas Noticias (01/02/2019), o jornal mais amplamente lido. Nela, Caprilles disse que a maior parte da oposição não apoiou a autoproclamação de Guaidó a presidente. Isso pode explicar a participação extremamente fraca na manifestação de Guaidó, ocorrida num dos distritos mais ricos de Caracas, e obviamente ofuscada pela manifestação pró-governo, que ocorreu numa das principais avenidas.

 

O New York Times não mostrou nenhuma foto da manifestação pró-governo, se limitando a alegar por “especialistas” não nomeados (02/02/2019) que a manifestação governista fora menor do que a oposicionista.

 

Os leitores podem olhar para as fotos das demonstrações rivais e julgar por si mesmos. Os dois grupos fizeram o seu melhor para atrair o seu público fiel, sabendo o quanto depende de uma demonstração de apoio popular. O jornal estridentemente direitista da oposição El Nacional (03/02/2019) continha uma foto do protesto de direita: