ALAI, América Latina en Movimiento
2005-07-27
Brasil
A crise brasileira: Investigando cenários
Marcos Arruda
A situação do governo Lula parece agravar-se a cada dia, com a revelação do envolvimento de membros do partido hegemônico, o PT, em esquemas de corrupção e prevaricação. O problema, porém, é muito mais profundo do que aparenta. A crise moral e ética não se restringe ao PT. Envolve praticamente todo o mundo da política e todos os partidos. Envolve também o grande capital privado. Onde há corruptos, há corruptores. A sociedade civil e os setores íntegros dos três poderes da República e exigem que se investigue e puna com o mesmo rigor as fontes dos dinheiros de campanha e os responsáveis ativos e passivos por tráfico de influência e pela prática de lavagem de dinheiro. O panorama que se desdobra aos olhos estupefatos da Nação vai além dos meros "casos" de corrupção. O Estado brasileiro, ocupado desde suas origens pelos interesses do grande capital, parece uma imensa máquina que devora aqueles que passam a integrá-lo. As elites, sempre que ocupam o Estado, tomam o voto dos eleitores como uma caderneta de cheques em branco que legitima o que quer que façam enquanto dura o mandato. Recusam-se a reconhecer que, na democracia, o povo é o delegante e eles, os delegados para o mandato público.
Que cenários podemos visualizar neste dramático momento, capazes de orientar a nossa indignação e as nossas ações? O estudo de cenários consiste em reflexão ex-ante sobre possíveis tendências de desdobramento da conjuntura. Um exercício de antecipação que ajuda a orientar a ação em favor do cenário mais desejável.
Primeiro cenário: a confirmação de que o mensalão existia de fato e o Ministro da Casa Civil José Dirceu, junto com o presidente do PT, comandavam o esquema. Neste caso, seria difícil acreditar que o Presidente Lula não estivesse a par. Se ficar evidente que Lula era co-responsável pelo esquema do mensalão, ou era um cúmplice passivo, seria iminente o impedimento do Presidente e, no PT, o colapso do Campo dito majoritário. Neste caso, o vice assumiria. Alencar, apesar de ser do PL, tem um perfil pouco desejável para os que hoje dominam a economia! Ele decerto baixaria rapidamente a taxa de juros regida pelo Banco Central; atuaria para reduzir a dependência do capital externo; esforçar-se-ia para reativar o setor produtivo da economia, não apenas o exportador, mas o que produz para o mercado interno. Alencar chegaria às eleições de 2006 como o mais forte candidato à Presidência. Evitar isto parece ser a principal razão de as oposições estarem fazendo tudo para proteger o mandato do Lula.
Segundo cenário: o Campo Majoritário contorna a crise e Lula sai candidato à reeleição. Para isto ele teria que enfrentar uma luta interna acirrada dentro do próprio PT. E um gigantesco assédio das direitas de todo tipo, pois que, mesmo beneficiadas pelas alianças e pelas políticas do governo Lula, elas não lhe permitiriam outro mandato e teriam seu próprio candidato. Não haveria Duda Mendonça capaz de enfrentar o tsunami de denúncias e ataques que as direitas políticas e midiáticas iriam armar contra Lula e sua chapa. Portanto, neste caso, a probabilidade maior é a derrota de Lula e uma espécie de (auto)sepultamento do PT. Pode-se prever que Lula e seus fiéis reapareceriam na política como oposição populista, com o mesmo discurso radical do passado, para tentar limpar sua imagem e reconquistar espaço junto às massas. Mas há também a hipótese, ainda que secundária, de Lula ganhar. Neste caso, é mais do que provável que ele forme um governo ainda mais à direita. As esquerdas seriam obrigadas a desmontar definitivamente do cavalo desse governo e, enfim, assumirem o papel aberto de oposição pela esquerda ao governo Lula.
Terceiro cenário: a direita e o PSDB conseguem persuadir Lula a encaminhar a emenda constitucional eliminando a reeleição, colocando-se como presidente-herói, que aceitou fazer este sacrifício. A mídia sinalizou conchavos entre FHC e gente do PT neste sentido. Há poucos dias o senador Cristóvam Buarque sugeriu a mesma coisa a Lula, da tribuna do Senado! Neste caso, o caminho ficaria aberto para a vitória do PSDB ou de um partido ainda mais à direita em 2006. Mas não só.
Quarto cenário: o colapso do Campo dito majoritário e o fim do estatuto da reeleição podem abrir caminho para o lançamento de outra candidatura do próprio PT, que encarne a decência, a integridade e apresente um projeto de Brasil capaz de empolgar o imaginário popular. Alguém da estatura política e moral de um Plínio de Arruda Sampaio, por exemplo. Esta hipótese se fortalece caso as esquerdas do PT se unam em torno do nome dele para presidente do PT nas eleições internas de setembro. Plínio significaria uma profunda mudança interna, a moralização do partido e o resgate de um projeto soberano e solidário de desenvolvimento do Brasil. Neste caso, criar-se-ia uma situação única no País: o partido do Presidente levantar-se-ia para exigir a mudança da equipe econômica e o redirecionamento das prioridades do orçamento, incluindo a auditoria das dívidas financeiras. O Presidente, pressionado de todos os lados, poderia até pensar em sair do PT e buscar outro partido, ou ficar sem partido até perto das eleições de 2006. Isto parece mais provável do que ele ceder às pressões de um PT renascido.
- Marcos Arruda é economista e educador do PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Rio de Janeiro.
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