Os interesses econômicos que sustentam o golpe em Honduras - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2009-08-04
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Honduras

Os interesses econômicos que sustentam o golpe em Honduras

Frida Modak

Honduras tem muito petróleo, conforme mostraram as prospecções feitas  por uma empresa norueguesa há um ano, a pedido do presidente Zelaya. O  presidente deposto acionou judicialmente as empresas estadunidenses que  vendiam petróleo caro a seu país e se juntou ao grupo Petrocaribe,  criado pela Venezuela. O projeto de Zelaya para a nova Constituição  previa que os recursos naturais de Honduras não poderiam ser entregues  para outros países. O artigo é de Frida Modak, ex-secretária de imprensa  do presidente Salvador Allende.
 
Completou-se um mês do golpe de Estado em Honduras e, como em toda a  ditadura, se mantém o Estado de Sítio, as garantias individuais existem  só no papel e os poderes Legislativo e Judiciário são um apêndice do  regime de fato. Os hondurenhos, assim como a quase totalidade dos povos  latinoamericanos, já viveram essa realidade antes e a rechaçam.
 
A comunidade internacional também rechaçou o golpe de 28 de junho e  adotou acordos claros de condenação aos golpistas, demandando a  restituição em seu cargo do presidente constitucional Manuel Zelaya. Mas  as coisas já não são tão claras nem categóricas e os motivos são alheios  aos interesses do povo hondurenho e dos latinoamericanos em geral. Da  mesma maneira, as justificações dadas pelos golpistas não são  verdadeiras porque o golpe serve aos interesses do grupo de poder  encabeçado pelo ex-vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, cujos  operadores há tempo pululam pela região e buscam infiltrar-se nos governos.
 
O grupo de Cheney, do qual são parte também os Bush, se interessa  fundamentalmente no petróleo, por isso invadiram o Iraque e o  Afeganistão, avançaram contra o Irã e tentam derrubar o presidente Hugo  Chávez, fazem o mesmo com Evo Morales, atacam o presidente equatoriano  Rafael Correa e desejam o petróleo cubano da zona do golfo do México.
 
Honduras tem muito petróleo, como disse Gerardo Young no dia 19 de  julho. As prospecções foram feitas por uma empresa norueguesa há um ano,  convocada pelo presidente Zelaya que, como já foi informado, acionou  judicialmente as empresas estadunidenses que vendiam petróleo caro a seu  país e se juntou ao grupo Petrocaribe, criado pela Venezuela.
 
A empresa norueguesa que fez as prospecções e as financiou, entregou um  relatório ao governo de Zelaya e ficou com uma cópia que pode negociar  com empresas que estejam interessadas na informação sobre essas  reservas. Para além disso, porém, e isso se sabia, se fosse aprovada a  consulta destinada a determinar se deveria ser instalada a quarta urna  nas eleições de novembro, na qual se votaria sim ou não à convocação de  uma Assembléia Constituinte, o projeto de Zelaya na eventual nova  Constituição era estabelecer que os recursos naturais do país não  poderiam ser entregues para outros países.
 
Em conseqüência, o pretexto para o golpe de Estado foi a consulta sobre  a quarta urna, mas o objetivo foi evitar que se pudesse ditar uma  Constituição que impedisse apoderar-se do petróleo hondurenho. Nessa  conspiração, estiveram Otto Reich e sua "fundação" Arcadia, e o  embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llores, nomeado pelo governo  de Bush e Cheney. Mas também participaram do complô os donos dos meios  de comunicação, porque se estimava que a nova Constituição deveria  promover uma distribuição igualitária do espectro radioelétrico,  garantindo a participação dos grupos comunitários. Daí a desinformação  que sai hoje de Tegucigalpa.
 
As mediações
 
Na reunião da Assembléia Geral da OEA, realizada em São Pedro Sula,  Honduras, viu-se que a secretária de Estado dos EUA não gostou da  intervenção do presidente Zelaya em defesa da revogação da expulsão de  Cuba desse organismo. Dado o escasso conhecimento da sra. Clinton sobre  a América Latina e estando ela rodeada de funcionários do  "establhisment" e de outros mais perigosos, como John Negroponte, sua  reação ao golpe hondurenho foi superficial, assim como foram vagos os  comentários iniciais feitos pelo presidente Obama.
 
Quando toda a América Latina e o Caribe, a Assembléia Geral das Nações  Unidas e a União Européia já tinham condenado categoricamente o golpe e  pediam a restituição de Zelaya, os EUA modificaram seu discurso e o  Departamento de Estado propôs a mediação do presidente da Costa Rica,  Oscar Arias, em um contexto que pedia, na verdade, o cumprimento dos  acordos das entidades internacionais. Arias, que não foi "o" pacificador  da América Central, porque foram muitos, e que recebeu um prêmio Nobel  da Paz destinado originalmente a Costa Rica por ser um país sem  exército, aceitou a mediação e entregou uma proposta que foi rechaçada  pelos golpistas porque defendia a restituição de Zelaya na presidência.  Então, elaborou outra fórmula, que satisfaz melhor os interesses  estadunidenses, na medida em que converte Zelaya em uma figura  decorativa e antecipa as eleições de novembro, com o que se passa um  borrão, zera-se a conta, e o golpe de Estado desaparece em um passe de  mágica.
 
Esta segunda proposta tropeça no mesmo obstáculo; o regime de fato  sequer aceitou a restituição de Zelaya no cargo de presidente e deu  início a uma farsa mediante a qual "consultarão" os outros poderes. O  Legislativo se reuniu e tratou de vários pontos da proposta, menos o  relativo à restituição do presidente. O poder Judiciário tampouco  aceitou esse ponto, sobretudo pelo fato de que o presidente da Corte  Suprema já reconheceu que ele também poderia ocupar a presidência de  acordo com a "Constituição"
 
, justificando o golpe como "um caso de necessidade".
 
Neste contexto, o secretário geral da OEA buscou outros mediadores: os  ex-presidentes Ricardo Lagos, do Chile, e Julio Maria Sanguinetti, do  Uruguai, aos quais se somaria o peruano Rafael Pérez de Cuellar,  ex-secretário geral da ONU. Ao escrever estas linhas ainda não havia  sido formulada a idéia, mas outra equipe mediadora implica dar mais  tempo ao regime de fato e, com isso, pode-se terminar avalizando a  trapaça para chegar às eleições de novembro ou antecipá-las, deixando o  golpe de Estado no limbo.
 
Os golpistas
 
Como se tornou visível, os golpistas vivem em um passado muito passado.  Quando se reuniram no Congresso para "substituir constitucionalmente" a  Zelaya, a sessão parecia com a de uma confraria de séculos atrás, com  todo um cerimonial que já não é empregado em parte alguma. Seus  chanceleres dão uma idéia do segmento social que representam. Ortez, o  primeiro deles, retratou a todos quando disse a respeito de Barack  Obama: "esse negrinho não sabe onde fica Tegucigalpa". Mudaram-no de  lugar, mas quando foi falar do secretário geral da ONU, repetiu a dose:  "esse chinesinho que não me recordo como se chama".
 
Ortez já está em sua casa, mas por ser imprudente e não porque suas  palavras não representem o pensamento da soberba oligarquia hondurenha  que tomou o poder, entre os quais há muitos com aparência de "negrinhos"  e "chinesinhos" que não se vêm a si mesmo como tais, mas sim ao povo que  desprezam. Portanto, o desafio que representa a reação popular ao golpe  é intolerável.
 
O grupo golpista é liderado por Roberto Micheletti, um empresário do  setor de transporte que fez fortuna. Nunca conseguiu que seu partido, o  Liberal, o nomeasse candidato à presidência; perdeu em todas as  oportunidades que tentou e tem a fama de homem bruto. Na Secretaria de  Defesa dos Direitos da Mulher há três denúncias contra ele, sendo que  nenhuma delas foi levada adiante pelo órgão.
 
Um dos incidentes ocorreu na reunião de seu partido que definiu o  candidato presidencial do Partido Liberal para as eleições de novembro.  Micheletti não só perdeu, como foi vaiado pelos assistentes. Como prêmio  de consolação, deram a ele a presidência do Congresso e quando ia subir  no palanque do encontro, uma jovem do grupo de protocolo, chamada  Suyapa, pediu que ele esperasse um momento porque não tinham terminado  de colocar as cadeiras. Irritado pelas vaias que havia levado,  Micheletti desferiu um tapa na cara de Suyapa, causando-lhe um corte na  boca.
 
Um mês de protesto popular
 
Desde o momento em que os hondurenhos se inteiraram do golpe de Estado,  é preciso recordar que os meios de comunicação foram censurados, e os  protestos têm sido permanentes. Os manifestantes estão na rua todos os  dias e não estão dispostos a ceder. A imprensa dos EUA reconheceu isso e  realizou pesquisas rápidas junto aos manifestantes. Eles responderam que  Zelaya foi o primeiro presidente que havia se preocupado com eles e que  com quem podiam falar sem termos sobre seus problemas e aspirações. O  resultado dessas pesquisas foi publicado pelo Washington Post.
 
Em Honduras, que tem um pouco mais de 7 milhões de habitantes, a maioria  é pobre, mas há cerca de 1,5 milhão que são absolutamente pobres. O  governo de Zelaya começou a se ocupar dessa parcela da população através  do programa Rede Solidária, coordenado pela esposa do mandatário. Para  determinar o grau de pobreza, tiveram que fazer uma medição baseada em  averiguar se comiam. E se a resposta fosse afirmativa, perguntar o quê e  quantas vezes ao dia.
 
Também foi preciso estabelecer onde e como viviam, se era em casas, se  essas casas tinham portas e janelas, se tinham algum serviço, porque não  tinham trabalho nem endereço fixo. Cerca de 200 mil famílias já tinha  sido incorporadas ao programa e, desde o início do golpe, não recebem  ajuda alguma. Inclusive é possível que não alguns nem saibam o que  ocorreu; outros saberão por causa da repressão.
 
No entanto, apesar do Estado de Sítio e do toque de recolher, aumenta a  cada dia o número dos que chegam a El Ocotal, na Nicarágua, para  somar-se ao acampamento daqueles que apóiam o presidente Zelaya, que se  encontra ali, depois de ter ingressado em território hondurenho (e  retornado). O presidente solicitou às Nações Unidas o status de  refugiado e a ajuda correspondente a todos os que estão ali para  acompanhá-lo, porque se regressarem a Honduras estão ameaçados com uma  condenação a seis anos de prisão por "traição à pátria", a qual, pelo  visto, só pertence aos golpistas.
 
Ao longo desta semana, estão convocadas greves e muitas outras  manifestações de protesto. A pergunta que fica é até que aponto podem  seguir sendo ignoradas e reprimidas em defesa de interesses alheios e de  um governo ilegítimo. Ainda mais quando essa manipulação aponta também  para toda a América Latina e para as instituições criadas recentemente:  Unasul, Mercosul, Alba, Petrocaribe, Banco do Sul, Grupo do Rio e alguma  outra que me escapa agora, na medida em que priorizam os interesses da  região. (Tradução: Katarina Peixoto)
 
- Frida Modak é jornalista, foi secretária de imprensa do presidente  Salvador Allende, no Chile.
 
AGENCIACarta Maior, Sao Paulo, 04/08/2009


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