Ética para a nova era - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2009-07-03
Clasificado en:   Cultura: Cultura, Etica,
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Ética para a nova era

Leonardo Boff

Nenhuma sociedade no passado ou no presente vive sem uma ética.  Como seres sociais, precisamos elaborar certos consensos, coibir certas ações e criar projetos coletivos que dão sentido e rumo à história.  Hoje, devido ao fato da globalização, constata-se o encontro de muitos projetos éticos nem todos compatíveis entre si.  Face à nova era da humanidade, agora mundializada, sente-se a urgência de um patamar ético mínimo que possa ganhar o consentimento de todos e assim viabilizar a convivência dos povos.  Vejamos, suscitamente, como na história se formularam as éticas.

Uma permanente fonte de ética são as religiões.  Estas animam valores, ditam comportamentos e dão significado à vida de grande parte da humanidade que, a despeito do processo de secularização, se rege pela cosmovisão religiosa.  Como as religiões são muitas e diferentes, variam também as normas éticas.  Dificilmente se pode fundar um consenso ético, baseado somente no fator religioso.  Qual religião tomar como referência? A ética fundada na religião possui, entretanto, um valor inestimável por referi-la a um último fundamento que é o Absoluto.

A segunda fonte é a razão.  Foi mérito dos filósofos gregos terem construído uma arquitetônica ética fundada em algo universal, exatamente na razão, presente em todos os seres humanos.  As normas que regem a vida pessoal chamaram de ética e as que presidem a vida social chamaram de politica.  Por isso, para eles, politica é sempre ética.  Não existe, como entre nós, politica sem ética.

Esta ética racional é irrenunciável mas não recobre toda a vida humana, pois existem outras dimensões que estão aquém da razão como a vida afetiva ou além como a estética e a experiência espiritual.

A terceira fonte é o desejo.  Somos seres, por essência, desejantes.  O desejo possui uma estrutura infinita.  Não conhece limites e é indefinido por ser naturalmente difuso.  Cabe ao ser humano dar-lhe forma.  Na maneira de realizar, limitar e direcionar o desejo, surgem normas e valores.  A ética do desejo se casa perfeitamente com a cultura moderna que surgiu do desejo de conquistar o mundo.  Ela ganhou uma forma particular no capitalismo no seu afã de realizar todos os desejos.  E o faz excitando de forma exacerbada todos os desejos.  Pertence à felicidade, a realização de desejos mas, atualmente, sem freios e controles, pode pôr em risco a espécie e devastar o planeta.  Precisamos incorporá-la em algo mais fundamental.

A quarta fonte é o cuidado, fundado na razão sensível e na sua expressão racional, a responsabilidade.  O cuidado está ligado essencialmente à vida, pois esta, sem o cuidado, não persiste.  Dai haver uma tradição filosófica que nos vem da antiguidade (a fábula-mito 220 de Higino) que define o ser humano como essencialmente um ser de cuidado.  A ética do cuidado protege, potencia, preserva, cura e previne.  Por sua natureza não é agressiva e quando intervem na realidade o faz tomando em consideração as consequências benéficas ou maléficas da intervenção.  Vale dizer, se responsabiliza por todas as ações humanas.  Cuidado e responsabilidade andam sempre juntos.

Essaa ética é hoje imperativa.  O planeta, a natureza, a humanidade, os povos, o mundo da vida (Lebenswelt) estão demandando cuidado e responsabilidade.  Se não transformarmos estas atitudes em valores normativos dificilmente evitaremos catástrofes em todos os níveis.  Os problemas do aquecimento global e o complexo das varias crises, só serão equacionados no espírito de uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva.  É a ética da nova era.

A ética do cuidado não invalida as demais éticas mas as obriga a servir à causa maior que é a salvaguarda da vida e a preservação da Casa Comum para que continue habitável.

- Leonardo Boff é Teólogo e autor de Saber cuidar.  Etica do humano, compaixão pela Terrra, Vozes.



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