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2008-03-27
Clasificado en:   Política: Politica, DerechosHumanos, Militar,
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Argentina

Um país com mais de 30 mil desaparecidos

Daniel E. Benadava

Desde 24 de março de 1976 até hoje, na República Argentina, desapareceram mais de 30.001 homens e mulheres por razões políticas, ideológicas e sociais.

30 mil homens e mulheres desaparecidos na ditadura

Na década de 70 a República Argentina se encontrava submersa em uma situação alarmante de inflação, crise sindical, violência social e crescente sensação de ingovernabilidade.

Diante desta situação, no dia 24 de março de 1976, as Forças Armadas Argentinas derrubaram a presidente do país, Isabel Martínez de Perón, e instauraram um governo militar que – de acordo com o que expôs a Junta de Comandantes Gerais – tinha o propósito de “restituir os valores essenciais que servem de fundamento à condução integral do Estado, enfatizando o sentido de moralidade, idoneidade e eficiências, imprescindível para reconstruir o conteúdo e a imagem da nação, erradicar a subversão e promover o desenvolvimento econômico da vida nacional baseado no equilíbrio e participação responsável dos diferentes setores a fim de assegurar a posterior instauração de uma democracia, republicana, representativa e federal, adequada à realidade e às exigências de solução e progresso do povo Argentino.

Para alcançar esse objetivo, entre outras tantas questões, as Forças Armadas reprimiram “com a pena de reclusão por tempo determinado aquele que, por qualquer meio, difunda comunicados ou imagens relacionados (...) a pessoas ou grupos notoriamente dedicados a atividades subversivas ou de terrorismo (...) e com reclusão de até 10 anos o que por qualquer meio difundir (...) notícias com o propósito de (...) desprestigiar a atividade da segurança ou dos policiais”.

Os militares também dissolveram os partidos políticos e o Congresso da Nação, intervieram nos sindicatos e justificaram o assassinato do jornalista argentino Rodolfo Walsh: “a corrente das idéias e interesses de minorias derrotadas que travam o desenvolvimento das forças produtivas exploram o povo e desagregam a Nação”.

Em 10 de dezembro de 1983, data em que a República Argentina voltou a ter um presidente democrático, as Forças Armadas abandonaram o poder e deixaram “atrás de si” o desaparecimento de 30 mil argentinos que lutaram e deram suas vidas para que seu país voltasse à vida democrática.

Uma desaparecimento na democracia

Em meados de setembro de 2006, durante o governo democrático de Néstor Kirchner, desapareceu Julio López logo depois de ter deposto no julgamento que condenou a prisão perpétua do ex-Diretor de Investigações da Polícia da província de Buenos Aires, Miguel Osvaldo Etchecolatz, o qual foi condenado responsável por haver cometido – durante a última ditadura argentina – numerosos crimes contra a humanidade (contra a vida, a liberdade e a segurança de qualquer pessoa), entre os quais, por exemplo, se pode mencionar a tortura de Julio López.

Muito acreditam que os que fizeram desaparecer López também buscaram intimidar e amedrontar a todos aqueles que, tendo sobrevivido às torturas que receberam durante a última ditadura argentina, são hoje em dia testemunhas chaves para de depor contra os integrantes das Forças Armadas Argentinas, que intervieram direta ou indiretamente nos crimes contra a humanidade que a última ditadura militar argentina realizou contra a população do país.

O dia do desaparecimento de Julio López constitui uma “ferida aberta” para a democracia argentina já que não foram produzidos avanços significativos na investigação que procura esclarecer este macabro acontecimento.

Os “desaparecidos sociais” de nossos dias

No dia 1º de março deste ano a presidente argentina, Cristina Kirchner, ao inaugurar as sessões ordinárias do Congresso de seu país, declarou: “desde 1900, a cada três anos o país vivia uma recessão, o que conquistamos até aqui é o maior crescimento da Argentina no últimos 100 anos”.

Porém, muitos sustentam que a primeira mandatária não mencionou que, no transcurso das últimas décadas, na Argentina, cresceu de maneira alarmante o abismo que separa aqueles que concentram a riqueza do país e aqueles que pouco – ou nada – tem.

Sobre isso se referiu o Arcebispo de Buenos Aires, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, em sua última mensagem de Quaresma, afirmando que na República Argentina “há muitos, e muito perto de nós, que parecem vivê-la – a Quaresma – todo ano sem a possibilidade de vislumbrar a Páscoa. Já faz parte da paisagem cotidiana ver crianças e adultos revirando o lixo e buscando algo para acabar com a fome e o frio. O egoísmo, a desonestidade e a indiferença condenam muitos a viver todo o ano um jejum involuntário e uma penitência obrigatória”.

Na República Argentina existem milhares de homens e mulheres que, ao se encontrarem “desligados” do tecido social de seu país – ou seja, desamarrados do conjunto de relações e instituições sanitárias, educativas, recreativas e trabalhistas argentinas -, não parecem ter uma possibilidade concreta de reintegrar-se à sociedade e levar adiante uma vida digna e humana.

Todas essas pessoas que recentemente foram assinaladas pelo Episcopado Latino Americano como os “novos rostos de pobres ... novos excluídos, desaparecidos ... vítimas da exclusão ... grandes grupos de desempregados/as ... as pessoas que vivem na rua das grandes cidades ... camponeses sem terra”, podem ser definidas como os “desaparecidos sociais” de nossos tempos.

São seres humanos que parecem estar “desaparecidos” tanto da vista dos que transitam ao seu lado e – por falta de interesse e/ou preconceito – raras vezes se aproximam deles para estender-lhes uma mão; como as políticas governamentais – nacionais e provinciais – que, em geral, quando se aproximam deles é para reprimí-los ou outorgar-lhes insignificantes subsídios que, nunca constituem uma “solução” para que possam sair da pobreza em que vivem cotidianamente, sem uma mudança – de acordo com a visão de algum dos analistas – são “ferramentas úteis” que o Estado utiliza para apaziguar possíveis conflitos sociais.

Argentina: o sinuoso respeito aos direitos humanos

Embora Cristina Kirchner postule que “a questão dos direitos humanos é uma das políticas centrais de nosso Governo”, muitos consideram que enquanto continuam em liberdade aqueles integrantes das Forças Armadas que cometeram crimes contra a humanidade na década de 70, dificilmente população argentina poderá viver em tranqüilidade ou se resolva o desaparecimento de Julio López.

Tal como expressou Nilda Eloy, integrante da Associação dos Ex-Presos Desaparecidos da República Argentina: “menos de 5% dos repressores estão presos. Enquanto os outros 95% estiverem livres, nós estaremos em perigo. Não falo de nós testemunhas, mas de nós como sociedade”.

Muitos analistas estão pouco otimistas na hora de pensar que a presidente argentina possa achar uma solução de fundo para aqueles que nada tem, já que sustentam Cristina Kirchner ainda que ela não foi capaz de implementar políticas que promovam uma distribuição eqüitativa da riqueza da Argentina e, além disso, favoreçam uma verdadeira inserção daqueles argentinos e argentinas que constituem os “desaparecidos sociais” de nosso tempo.

E, assim mesmo, são muitos os cristãos argentinos que, junto com o Cardeal Bergoglio, estão convencidos que em seu país – como em tantas outras nações – não estão cumprindo o Projeto de Deus que prega “que todos possamos compartir os bens da terra, que ninguém fique sem comer, que ninguém morra porque não poder chegar até um médio e que ninguém suporte situações subumanas; mas lamentavelmente o pecado pessoal e estrutural não permite que esse sonho de Deus seja realidade hoje”.

 (Publicado originariamente na Alai - Agência Latino-Americana de Informação // www.alainet.org )

- Daniel E. Benadava é psicólogo.

Fonte: Brasil de Fato
http://www.brasildefato.com.br



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