ALAI, América Latina en Movimiento
2006-10-31
Bolivia
Bolívia fecha contrato com petroleiras e começa a nacionalizar as minas
Elaine Tavares
La Paz.- A semana que começa é de grande movimentação na Bolívia. Desde a segunda feira, dia 30, o povo comemora o fechamento dos acordos com as petroleiras, tema que estava provocando muita tensão internacional. Mas, ao que parece, todo o “terrorismo” praticado pela grande imprensa não passava de pura ideologia contra o governo popular de Evo Morales. Tanto que as 10 petroleiras que atuam na Bolívia assinaram o acordo considerando que está muito bom para ambos os lados. Nenhuma delas ainda explicou porque fizeram tanto alarde para rever os contratos, inclusive acusando Evo Morales de estar rompendo com os mesmos. Segundo o presidente da Câmara de Hidrocarburos, que é um brasileiro, representante da Petrobrás, o que aconteceu não foi a assinatura de “papelitos”, mas sim um bom contrato que permite às petroleiras seguirem com seus investimentos na Bolívia. Sob a consigna “Evo promete, Evo cumpre”, o presidente boliviano falou à nação dizendo que agora as empresas se converteram em sócias, e não donas dos recursos naturais da Bolívia. Sobre a Petrobrás, que também aceitou de bom grado o acordo oferecido pelo Estado boliviano, Evo declarou: “Brasil e Bolívia estão obrigados a viver um matrimônio sem divórcio. Por nossos povos e pelo bem da Pátria Grande, porque Bolívia precisa do brasil e Brasil precisa da Bolívia”.
Na Praça da Igreja San Francisco, onde se reúne muito do povo originário que vive em La Paz o clima era de euforia. “Esta era uma meta de todos nós, recuperar o controle dos nossos recursos. O presidente se elegeu para fazer isso. Agora, está feito”, diz Juan de Huyco, um vendedor ambulante. As mulheres vendedoras de artesanato também comemoram: “Nosso presidente vai mudar a Bolívia”. Enquanto preparam seus rituais para o dia dos mortos que se comemora em primeiro de novembro, os quéchuas e aymaras, que foram os protagonistas principais na queda do ex-presidente Sanchez de Losada - vão se fortalecendo. Eles acreditam que Evo vai cumprir cada ponto do seu programa de governo, fazendo com que a Bolívia avance e, com ela, a luta dos povos que por mais de 500 anos ficaram submetidos à colonização.
Esta semana os termos dos contratos já começaram a ser discutidos no Congresso Boliviano – que é quem vai aprová-lo - e para os analistas este vai ser o momento de melhor compreender “as letras pequenas”. A novidade é que estes contratos firmados na última segunda-feira não têm cláusulas de confidencialidade como havia nos anteriores. Ou seja, toda a gente boliviana vai poder saber o que se esconde por detrás das letras. Para o vice-presidente Álvaro García Linera, com a melhoria da entrada de recursos via gás, agora a Bolívia vai poder começar a pensar num processo de industrialização, gerando mais emprego e estabelecendo um crescimento endógeno.
Mas, nem só de alegrias vive o povo boliviano. Com o início do processo de nacionalização das mineradoras, mais alguns focos de tensão estão sendo criados. Nesta terça-feira, várias minas privadas amanheceram com seus trabalhadores armados e prontos para enfrentar qualquer coisa. Segundo dizem, não vão permitir a intervenção do Estado. O ministro da Energia, por outro lado, tem deixado claro que o governo não vai expropriar propriedade privada nem vai meter a mão nas cooperativas. Todo o processo vai seguir como o do gás. Com conversa e negociação. O que importa é que, no final, o povo saia ganhando. Isso significa que esta semana também vai ser quente na Bolívia.
- Elaine Tavares – jornalista no Ola/UFSC. O OLA é um projeto de observação e análise das lutas populares na América Latina.
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